A censura não pode ser indultada…

 

Ainda não passaram dois meses desde as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril de 1974…

Entretanto, parece ter-se retomado a “normalidade”, os cravos vermelhos murcharam e muitos dos discursos laudatórios e louvaminhas, enaltecendo o Dia da Liberdade, foram certamente guardados nas gavetas mais fundas de alguns armários…

Ainda não passaram dois meses desde as comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril de 1974 e ficou a conhecer-se a sentença do Ministério da Educação face à acusada Glória Sousa, Directora do Agrupamento de Escolas Júlio Dinis:

– “A diretora do Agrupamento de Escolas Júlio Dinis, em Gondomar, foi suspensa por 20 dias pelo Ministério da Educação, devido a uma tarja de apoio à luta dos professores.” (Jornal Correio da Manhã, em 7 de Junho de 2024)…

 “Estamos a dar a aula mais importante das nossas vidas”, referia a faixa, colocada por docentes à entrada da Escola Júlio Dinis, que levou a diretora a ser acusada de violação dos deveres de imparcialidade e lealdade.” (Jornal Correio da Manhã, em 7 de Junho de 2024)…

Perante o anterior, o que dizer desta pretensa Democracia, implantada há 50 anos?

Passado meio século, a “Democracia” encontra-se inquinada, decadente, decrépita, rançosa…

As consequências da acção governativa do anterior Ministério da Educação, pelo que se conhece, ainda se fazem sentir…

A sentença que agora atinge Glória Sousa é bem ilustrativa da degradação de uma “Democracia” que não teve qualquer reserva em exercer uma prepotente acção de censura, absolutamente incompreensível e inaceitável, encapotada de legalidade, engendrada contra um profissional de Educação, neste caso Directora de um Agrupamento de Escolas…

Mas o Estado de Direito Democrático, consagrado no Artigo 2º da Constituição da República Portuguesa, não parece admitir a possibilidade de alguma forma de censura ou de intimidação à Liberdade de Expressão e ao Direito de Opinião…

Ainda que a frase ostentada na Escola Júlio Dinis, e posteriormente também noutras escolas, possa ser entendida como uma crítica implícita ao anterior Ministério da Educação, será isso proibido num Estado de Direito Democrático?

Em que momento Portugal terá deixado de ser um Estado de Direito Democrático?

Se isto não é censura da mais óbvia e ostensiva, então o que será censura?

O acto de criar e adoptar uma divisa, por sinal, muito apropriada a qualquer Escola Pública, de que é exemplo a frase “Estamos a dar a aula mais importante das nossas vidas”, não pode ser censurado apenas porque um qualquer Ministério da Educação o interpretou como atentatório à sua “doutrina”, ao seu paradigma ou à sua propaganda…

Numa verdadeira Democracia não é admissível que um Director possa ser acusado de violação dos deveres de imparcialidade e lealdade, por discordar das políticas ministeriais de um qualquer Governo…

Cabe a cada um de nós não permitir que a censura possa ser indultada, desculpada, perdoada, amnistiada, relevada, nem absolvida…

Este gravíssimo atropelo à Liberdade de Expressão e ao Direito de Opinião não pode deixar de ser denunciado por todos, de todas as formas que cada um tiver ao seu alcance e dispor…

Porque esta sentença não atinge apenas Glória Sousa…

Esta sentença atinge-nos a todos, enquanto cidadãos e enquanto profissionais de Educação…

A censura não pode ser indultada, desculpada, perdoada, amnistiada, relevada, nem absolvida…

Se a indultarmos, desculparmos, perdoarmos, amnistiarmos, relevarmos ou absolvermos, voltaremos, com certeza, ao dia 24 de Abril de 1974…

E muito mais depressa do que seria suposto…

 

Paula Dias

 

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13 comentários

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  1. Tudo por uma simples tarja…deplorável, para não dizer ridículo!

      • Mainada on 9 de Junho de 2024 at 22:23
      • Responder

      Uma sentença deplorável, ridícula e autocrática. É bom que o presente ministro da Educação a reverta se quiser ser tomado a sério. Não custa dinheiro.

  2. Esta sentença atinge a democracia, inacreditável esta sentença, espero vê-la revertida, mas desde já lhe dou os parabéns pela coragem e digo ” Foi uma grande lição “.

    • Então, senhor Ministro? on 9 de Junho de 2024 at 21:38
    • Responder

    Até que enfim que dizem alguma coisa!!
    Já tinha sido colocado um post sobre a sentença
    à da colega diretora,e só houve um comentário. O meu!
    Estão a dormir????
    Não há solidariedade? Só se manifestam 3 pessoas???
    Lembrem se: levaram os judeus, os negros , os ciganos, os comunistas e eu não disse nada .
    Quando me vieram buscar a mim, já não havia ninguém para me defender!
    O texto da Paula é justíssimo . Obrigada, Paula.
    O MECi, ou a IGEC, por ele, o que pretende com esta prepotente sentença?
    Acabar com a democracia? Meter medo às pessoas? Acabar com a liberdade de expressão nas escolas?
    Fica muito mal à social democracia portuguesa se esta estúpida sentença não for imediatamente arquivada. Apagada!
    Então, senhor ministro, por que espera?

  3. Vergonhoso país de hipócritas e falsos democratas!

    • Agnelo Figueiredo on 10 de Junho de 2024 at 0:10
    • Responder

    Não sei que tarja era, se foi a diretora que a colocou, ou se autorizou que a colocassem.
    Não é relevante.
    O que importa saber, e lembrar, é que o diretor é o representante do Ministério na escola, estado, por isso, obrigado ao dever de lealdade.
    Isto não é uma questão partidária.

      • Mainada on 10 de Junho de 2024 at 0:19
      • Responder

      Não sejas parvo mais o dever de lealdade bacoco. A tarja (que está num post anterior, bastaria menos preguiça e um niquinho de pesquisa) foi igual ao que vimos, um pouco por todas as escolas do país. Esta Diretora simplesmente teve o azar de ser alvo dos autocratas. 50 anos depois do 25 de abril é inadmissível. És inadmissível e tens mente de escravo. Vai para casa.

        • Alves Alves. on 10 de Junho de 2024 at 7:34
        • Responder

        Concordando ou não com a opinião do colega A. Figueiredo, temos que a respeitar. A tal Democracia que a colega Paula Dias se referia também era respeitar a liberdade de opinião ,concordemos ou não com ela.

          • Mainada on 10 de Junho de 2024 at 9:51

          Pois. E a liberdade de exprimir a indignação também. Como ninguém condenou o Agnelo a nenhuma pena criminal…

    • 5ergion on 10 de Junho de 2024 at 1:43
    • Responder

    Democracia significa poder (ou governo) do povo… por favor, não confundam Democracia com uma República de Governo Representativo, que é aquilo que temos! E se acreditam que essa representatividade se refere ao povo… bem, serão ainda bem mais ingénuos do que pensava!

    • Maria N. on 10 de Junho de 2024 at 11:16
    • Responder

    O governo PS dos Costas (António e João) mostrou bem como os comunistas e socialistas entendem a liberdade de expressão. Se as opiniões expressas lhes forem favoráveis, a liberdade de expressão é linda; se forem críticas à atuação política deles, então tornam-se um alvo a abater.
    Lembram-se dos cartazes na manif dos professores ? a comunistas Carmo Afonso e a socialista Isabel Moreira vieram logo gritar aqui d´el-rei que eram “ofensivas”, “violentas” e “manchavam a luta dos professores”.
    Reles democratas que não conseguem lidar com críticas. Nos regimes totalitários também é assim: se bajulares o Chefe, está tudo bem, se te atreveres a insinuar que ele não é perfeito, estás lixada/lixado .
    A mim, o PS não engana nunca mais ! Armam-se em grandes defensores da democracia, mas são uns falsos.
    Seria uma bela bofetada de luva branca ,se fosse um ministro de um governo de direita a reverter uma sanção censória e injusta contra uma diretora. Não sei é se este governo tem interesse em mostrar-se democrático.

    • O coxo canguru perneta on 10 de Junho de 2024 at 19:20
    • Responder

    O João costa é o Herr Flick da educação coxeia tem bengala e um esgar sádico e estupido..

    • homem da paróquia on 10 de Junho de 2024 at 19:21
    • Responder

    O dever de lealdade que existia nos campos de treblinka não é Agnelo.

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