Pacificação e valorização dos professores – José Afonso Baptista

 

É preocupante o estado de calamidade a que chegou a educação. No início de um novo ciclo importa retirar todo o entulho que se atirou ao pântano para o tornar um espaço limpo e saudável.

A guerra com os professores criou a maior instabilidade e as colocações à distância conseguiram transformar a profissão docente na mais odiosa escolha como modo de vida. A medida mais urgente para o novo governo é pacificar os professores e dar estabilidade e confiança às escolas.

A contagem do tempo de serviço foi o pomo da discórdia ao longo de anos. Afinal, de um dia para o outro, o impossível foi possível e os partidos foram unânimes na resolução do problema que deixou de o ser, qual Fénix que renasceu das cinzas. Milagre das eleições. Pascal tinha razão: “Le coeur a des raisons que la raison ne connait pas”.

Uma bela noite, o senhor ministro acordou estremunhado, a tremer no meio de um pesadelo que o tirou do sério. Sonhou que lhe tinham levado, à força, a mulher, os três filhos e a avó para as Ilhas Desertas. Ficou com febre, perdeu o equilíbrio, e só se fez luz depois de um banho gelado. Afinal o problema dele era outro e desesperava por encontrar a chave: como é que ia acudir a tantas e tantos professores tirados à força das suas casas e famílias e desterrados para o fim do mundo? Como é que uma mãe professora poderá fixar-se nos seus alunos se não lhe saem da cabeça os filhos distantes? Como pode um professor prestar um serviço de qualidade dormindo encolhido no interior do automóvel? Como pode o ministro dormir sem pesadelos?

Não me aventuro a definir a melhor estratégia para as colocações. Mas, vendo os resultados, atrevo-me a dizer que um sistema centralizado e normalizado é irracional e injusto. Em países que fui conhecendo, verifiquei que as normas de recrutamento se definem ao centro, mas é a escola que as aplica de acordo com a realidade local. É a escola que contrata e gere o corpo docente. O país não é todo igual e os concursos devem respeitar as especificidades locais e o perfil requerido pela escola. Imaginem uma docente especializada na área da deficiência mental obrigada a lecionar uma classe de dez crianças surdas que só comunicam em LGP. Parece anedota mas aconteceu e por pouco não deu em tragédia.

Esta é a vertente mais desumana da profissão docente. Mas não podemos esquecer a vertente da formação, da atualização e da especialização. Até hoje, os docentes tiveram de pagar do seu bolso os níveis mais elevados de qualificação. Ficaram de fora todos os que não podiam pagar. Tanto talento deitado à rua.

Temos muitos professores com as mais elevadas qualificações a nível académico em todos os níveis de ensino, com bons reflexos na melhoria das escolas. Mas temos também o inverso, muitos docentes sem meios nem incentivos para as necessárias atualizações. O espaço digital e as novas tecnologias, o trabalho online, a AI, a robótica, as novas fontes do conhecimento e da informação, são requisitos que hoje devem ser exigidos a todos os candidatos à docência, mas devem também ser proporcionados, sem custos, aos docentes que ficaram esquecidos ao longo de décadas. A inclusão digital é uma necessidade da escola.

Outras instituições dispensaram os velhos quadros do analógico e recrutaram nas novas gerações do digital. Hoje não se vê um bancário que não esteja atrás de um PC. A escola não pode ir por aí e tem de recuperar os professores dos quadros esquecidos na máquina do tempo.

A classe docente é a peça-chave do funcionamento da escola, mas dispõe hoje de meios que facilitam muito a sua ação. A experiência mostra, por exemplo, que os robots têm enorme eficácia na aprendizagem de línguas estrangeiras. O primeiro fator de sucesso neste campo é o tempo de exposição à língua e o robot, com uma ótima aceitação pelas crianças, não se cansa e pode repetir mil vezes, impávido, o que esgotaria o professor na terceira repetição. O robot não substitui mas pode ser uma ajuda preciosa.

A eficácia das escolas passa por recuperar os professores de todas as gerações. Cabe ao Estado assegurar e pagar a sua valorização, em protocolos com o ensino superior, atribuindo compensações financeiras por cada degrau no sentido da melhoria. O tempo de serviço só é importante se for traduzido em competência e inovação. Doutoramentos, mestrados e pós-graduações, com frequência gratuita, devem dar lugar a compensações financeiras aos seus titulares, sempre que orientados para a qualidade e melhoria das aprendizagens. É preciso atrair e recompensar quem investe para tornar a escola mais atrativa e eficaz. Muitos professores abandonam e outros são abandonados. Se o ME não adotar políticas de atração e manutenção dos seus quadros, será cada vez maior o número daqueles que vão “pregar noutras paróquias”. Os professores perderam o prestígio e o reconhecimento social de outros tempos. Hoje escolher a profissão docente é uma despromoção. O grande desafio para o novo Governo é inverter esta situação. O bom professor deve ter orgulho na sua profissão.

José Afonso Baptista | PhD Ciências da Educação | diário as beiras 28-03-2024

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3 comentários


  1. PHD em Cências da Educação.
    Desfasado portanto da realidade.
    A única coisa real deste texto é a desvalorização da classe docente, as soluções que aponta não.
    Pôr robos a ensinar crianças, serem as escolas a decidir a colocação dos professores, apostar ainda mais nas TIC e informatização das aprendizagens, não me parece ser o caminho.
    Relativamente á colocação os professores longe de casa, tenho uma opinião muito própria e que pode ser algo controversa.
    Este é um problema de impossível resolução.
    Se só existem vagas no Algarve e Lisboa, se os professores que concorrem são do Norte, obviamente terão de ir lecionar para longe de casa.
    Não me parece de igual modo lógico, que se um docente concorrer para 400 km de casa e aceitar ficar nesse lugar depois reclame.
    Desde que me lembro, ainda não vi um único concurso que agrade a todos, há sempre alguém a gritar INJUSTIÇA.
    Ou são os QAs a serem injustiçados, ou são os QZPs a serem preteridos, ou os contratados espezinhados.
    Impossível agradar a todos.
    Na minha ótica, a forma de minorar este problema, seria com ajudas de custo aos docentes colocados longe de casa, mas reais e eficientes ajudas de custo.
    Da mesma forma que um deputado tem direito a subsidios para deslocações e residência.

    • Campos on 28 de Março de 2024 at 13:06
    • Responder

    O problema são estes patos bravos das “ciências” da educação que do alto da sua bolha procuram influenciar as escolas para proteger o seu tacho na Universidade. Cabe, urgentemente, aos professores que estão nas escolas voltarem a pensar e a escrever sobre a escola. É preciso recuperar esse espaço porque a desresponsabilização desse papel deu lugar a que os patos bravos das Ciências Ocultas dos Institutos de Educação tenham agora o nosso papel de pensar a escola e essa gente é perigosa porque vive alienada da realidade concreta e procura apenas produzir investigação da treta para garantir os tachos e evitar que os Institutos de Educação fiquem às moscas.

    • Luís on 28 de Março de 2024 at 14:32
    • Responder

    O. Problema está em falar da escola, e definir a política educativa , quem lá não entra há 40 ou 50 anos ou foge dos alunos como se não houvesse amanhã…

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