A escola pública “rebentou”! – Lúcia Vaz Pedro

É a nossa escola. É aqui que trabalhamos. É aqui que “rebentamos”.

A escola pública “rebentou”!

Já dizia João da Ega, em “Os Maias”, a propósito de Portugal: “É a nossa terra. É aqui que vivemos. É aqui que rebentamos.”

Quando falamos de escola pública, falamos de Portugal e daquilo que deveria orgulhar-nos. Por ela, os professores, os funcionários não-docentes “rebentam” todos os dias. E é por isso mesmo que lutamos, para que a escola seja um lugar onde vale a pena “rebentar”.

No entanto, têm vindo a “rebentá-la”, destruindo-a com medidas desoladoras, invertebradamente sem sentido nem eficácia.

Uma escola pública que se preze deveria promover a arte de aprender e de ensinar. Se “rebentam” quem nela trabalha, não há quem a segure, não há quem a enalteça, não há quem se orgulhe dela. E tudo começa por aqueles que deveriam dar o exemplo, os designados para promover, para cuidar e para proteger quem por ela “rebenta” todos os dias.

Porém, esses mesmos são os que ditam leis que fizeram com que a escola pública seja um lugar inóspito, cinzento, onde se paga para trabalhar, onde o ensino deu lugar à burocracia, onde existem barreiras contínuas para progredir.

Trata-se de uma escola onde o que é importante é ser “elástico” para se conseguir “esticar”: esticar medidas sem sentido (RTP”s, inquéritos, plataformas, grelhas, clubes, projetos, formações obrigatórias, mas que não existem e têm de ser feitas fora do horário de trabalho). Esticar o mísero ordenado para que sobre para comer, depois de se pagar a gasolina (cujos preços enchem os bolsos de quem pode) e a renda de uma casa longe da família. Esticar a paciência para com os alunos mal-educados, pedindo-lhes por clemência que estudem para o bem deles.

Esticam-se as notas para que passem, porque é importante termos um país com sucesso educativo, mesmo que os alunos não saibam nada.

Esticam-se os fins de semana para se preparar as aulas e corrigir trabalhos e testes, porque durante a semana passou-se demasiado tempo a preencher papéis obrigatórios para justificar o injustificável, mas que ninguém lê.

E é por tudo isto que os professores “rebentaram” e estão tão “rebentados” que nada os parará até que se cumpra o que é legítimo para continuarem a trabalhar.

E os funcionários não-docentes “rebentaram” com eles, porque também sofrem na pele o atual estado da educação da nossa querida escola pública.

É assustador? Sim! Quem ensinará a geração futura?

Mas quem disse que é preciso aprender? Neste país, basta ser chico-esperto, ter amigos convenientes e bem posicionados que nos ajudem a roubar o povo português. Mas a roubar muito para ser impune. Se for pouco, seremos algemados em praça-pública. Tem de ser milhões para que nos transformemos em heróis e consigamos abrir os telejornais.

Sim, João da Ega, estamos em Portugal! É aqui que vivemos! É por ti, querido país, que “rebentamos”! E a escola pública merece que se “rebente”, que se lute por ela! Pelo bem de todos! Pelo bem de Portugal!

Na verdade, todos nós, um dia, “partiremos”, mas a escola fica. Que fique com dignidade, com o respeito que ela nos merece nem que para isso tenhamos de “rebentar”

Sim, é Portugal! É aqui que vivemos! Por tudo isso vale a pena “rebentar” e recomeçar!

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4 comentários

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    • Mirtha on 11 de Janeiro de 2023 at 20:56
    • Responder

    Ah terra de poetas áridos sem proveito algum… ELES estão ficam tão sensibilizados que vos mandam catar piolhos mortos…. Pobre portugal dos pequenitos… e pseudo ingénuos, camuflados de pobres vitimas que choram de barriga cheia em terra de quem não chora não mama. Voluntariamente karmikos… fazendo-se de ingénuos para ver se mama mais do que já têm demais (comparativamente/relativamente). Pobre político/rico que já não tem paciência para tantas lágrimas de crocodilo.

    • Paulo on 11 de Janeiro de 2023 at 21:00
    • Responder

    Rebentou ? Implodiu 😀

    • Salaz on 12 de Janeiro de 2023 at 2:31
    • Responder

    Portugal é um país de merda.
    Quem cá nasce não tem culpa, teve um grande azar.

    • Mic on 12 de Janeiro de 2023 at 18:18
    • Responder

    A mais pura da verdade há muitos anos. Muito obrigado por a mencionar/revelar:

    “Trata-se de uma escola onde o que é importante é (..) esticar medidas sem sentido (…) Esticar a paciência para com os alunos mal-educados, pedindo-lhes por clemência que estudem para o bem deles.

    Esticam-se as notas para que passem, porque é importante termos um país com sucesso educativo, mesmo que os alunos não saibam nada.

    (…) preencher papéis obrigatórios para justificar o injustificável, mas que ninguém lê.”

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