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Quem quer ser professor? – Carlos Santos

Contrariamente ao que diz uma residual minoria ressabiada de docentes conspiradores e potencialmente subversores, a verdade é que os professores portugueses são muito bem pagos.
Se alguém quiser ficar rico depressa e sem esforço, sem dúvida que a melhor opção é ir para o ensino. Em todo o caso, se alguém estiver à procura de “trabalho”, nesse caso está a perder o seu tempo, pois no ensino só se oferecem empregos.
O pedagogo moderno labora apenas 35 horas por semana de serviço simples e só leva trabalho para casa se pretender ganhar mais uns milharzitos de euros, pois o trabalho é pouco, os alunos são uma doçura, cada vez mais autónomos, responsáveis, educados, respeitadores e fáceis de lidar e quase não há documentos para elaborar e preencher, testes para corrigir, nem aulas para preparar. Reuniões, não as há e as que surgem são muito bem pagas, mais ainda quando se realizam em horário pós-laboral, sendo curtas, repletas de um prazer evidente no rosto em delírio de todos, que não se importam nada de ali estar enquanto a família, muito compreensiva, os espera em casa até à sua alegre chegada ao anoitecer.

Os pais são extremamente respeitadores e nunca importunam o tempo de descanso dos professores, nem os seus telefones pessoais sendo que, quando são atendidos fora de horas, pagam bem por esse serviço e ainda agradecem a amabilidade por lhes ter sido disponibilizado um tempo na sua agenda. É um regalo vê-los à porta da escola a receberem os seus rebentos (esses seres encantadores) com as palavras carinhosas “Meu tesouro, meu queridinho, meu mais que tudo!”. Encarregados de educação que, assim que põem a vista em cima de um professor, não é a única coisa que lhes põem em cima do corpo, pois não hesitam em vir determinados na sua direção de braços no ar para lhes darem um abraço apertado agradecendo-lhes calorosa e encarecidamente pela educação e formação que dão aos seus queridos filhos e pelo tempo que lhes dedicam. Um mimo que, embora seja recorrente, os professores nunca se habituam e lhes enche a alma!
É das poucas profissões onde as horas extraordinárias são pagas, pelo que as centenas de horas extra desnecessárias para tão pouco trabalho escolar (mas que os professores fazem voluntariamente para ganharem mais ordenado), são assalariadas por uma torrente de numerário.
Para os professores mais ambiciosos, que saem de casa manhã cedo e só regressam à noite sem qualquer problema em deixar os filhos sozinhos ou com terceiros, há dinheiro a rodos para ser distribuído caso não se importem de levar mais trabalho para o seu lar para faturarem até altas horas da noite a corrigir testes e preencherem papeladas extremamente úteis e funcionais, contudo, facílimas de preencher.
São tão bem pagos que só mesmo os professores têm posses para andarem diariamente a passear pelo país. Isto é vê-los eufóricos constantemente a atestar os carros nas gasolineiras e a vadiar nas estradas por todo o lado de manhazinha até à noite. Vê-los encher o carro ao domingo à noite, partirem rumo ao desconhecido e só regressarem à sexta-feira à noite, já é um clássico destes doidivanas neo-hippies pós-modernos abertos à aventura.
As ajudas de custo são tantas e o gosto em se juntarem, maior ainda, que ao fim da tarde ou aos fins de semana é vê-los em ajuntamentos de convívio em milhentas ações de formação, todas elas gratuitas e desnecessárias.
E para quem aprecia particularmente viajar, existem imensas e longas visitas turísticas de estudo muito bem remuneradas, na simpática companhia de crianças altamente disciplinadas.

Graças a tantos subsídios de alojamento, têm a oportunidade de todos os anos mudarem de casa para perto da escola para não terem de se deslocar. Isto para não falar daqueles que preferem alugar um quarto para, juntando o útil ao agradável, amealharem mais dinheiro e terem um serviço de quartos ao estilo hotelaria de sete estrelas.
Quando acordam num dia menos sorridente, nada como ligar um qualquer boletim noticiário para escutar os rasgados elogios do nosso líder supremo para que o sol volte a raiar no nosso exclusivo céu perpetuamente azul e o ânimo fique novamente tão elevado como as suas contas bancárias.
As direções das escolas espalham uma luz interior pejada de benevolência e compreensão, partilhando um ombro amigo e um empático sorriso conciliador que se irradia em cada rosto.

Os colegas de profissão, no seu júbilo e altruísta amor pelo próximo, não hesitam em dar a camisa do corpo no acolhimento de braços abertos aos novos colegas, num sentimento exultante de solidariedade e partilha fazendo com que se sintam em casa.
A carreira é aliciante e ao fim de poucos anos, muito naturalmente, já estão no topo a ganhar 5.000€ líquidos por mês, acrescidos de prémios de produtividade e por objetivos, subsídios de deslocação e de alojamento, carro à disposição para deslocações entre escolas e em serviço oficial (mas que podem levar para casa), telemóvel do estado para todas as chamadas de trabalho, ajudas de custo para material didático e para a frequência de formação contínua.
Armários e outros equipamentos obsoletos estão em falta, mas são desnecessários em escolas altamente tecnológicas, repletas de computadores atualizados que dão para todos, rápidos e com internet de alta velocidade que são um primor. “Assim até dá gosto vir para escola” é a frase mais ouvida diariamente num local onde ninguém sente que trabalha, tal o bem-estar geral e a alegria contagiante que reina em cada canto.

O ambiente é tão maravilhoso que a maioria não come em casa e se recusa a almoçar na cantina levando a sua marmita para a escola porque, bem entendido, nem lhes passa pela cabeça perderem essa oportunidade encantadora de conviverem com os seus pares, rejubilando com a possibilidade de absorverem e acumularem energias positivas.
Todas as pessoas ali ostentam um ar de felicidade e nada mais pedem por terem mais do que alguma vez desejaram e aquilo com que nunca sonharam. As reuniões sindicais transformaram-se em autênticas tertúlias e chás das cinco onde se podem marcar viagens turísticas, reencontros com os colegas jubilados e no “Dia do professor”, excursões anuais de confraternização até à sede do chefe máximo para demonstrar gratidão pelo tratamento extremoso que derrama sobre eles espalhando paz e harmonia pelas escolas.

Os professores gostam tanto deste emprego que lhes traz infindáveis regalias e tantas vantagens, que fazem questão de ir para o trabalho mesmo quando estão doentes. A única contrariedade é terem compulsivamente de se aposentar quando caducam os prazos de validade das suas licenças de frequência destes paraísos na Terra. Com supina modéstia, suponho até que o céu acima deles se encontra deserto por não poder oferecer mais do que as escolas oferecem. Prova viva são os rostos dos professores lavados em lágrimas quando se veem obrigados a abandonar o ensino, também contra a nossa vontade arrastados para fora dos portões da escola e metidos nos seus Bentley e Rolls-Royce, de volta pelas vias exclusivas das boulevards para as suas mansões nos luxuosos condomínios fechados nos olimpos situados no cimo de inalcançáveis montes dourados. Só posso sentir imensa pena daquela gente e pensar no que irão fazer depois com tanta juventude e tanto tempo livre nos imensos anos que têm pela frente. Um verdadeiro crime, de facto! Mas esse é o elevado preço a pagar por termos sido abençoados pelo abraço de tão admirável profissão. Só comprova estarmos certos de que, com tanta exultação e jovialidade, ao fim de uma vida de trabalho docente, ninguém será capaz de ter sentido ter trabalhado sequer um dia na vida. Haverá, a qualquer título, algo comparável?
És aventureiro e gostas de viajar, queres um trabalho pouco exigente e prazenteiro sem responsabilidades onde possas rapidamente enriquecer sem esforço? Então, candidata-te a professor!

Carlos Santos | Gestor de fortunas | Avenida do Engano, nº5º, 7º andar | contacto: 9 4 2 6 6 23 67

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