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O Menina

Um dia o meu professor primário, ouvindo as sonoridades das minhas doces palavras em plena sala de aula e perante os 52 alunos da turma, exclamou: “oh rapaz, pareces uma menina a falar”. Risada, galhofa, piadolas, tudo foi espontâneo e imediato e o resultado foi a alcunha que dá título a este texto. Daí em diante, e durante os quatro anos da primária, passei a ser o Menina.
O importante neste episódio é analisar e interpretar as consequências no âmbito do desenvolvimento da personalidade, dos sentimentos e comportamentos que esta alcunha pode gerar numa criança de sete anos. A primeira limitação desta análise advém do facto de que ninguém é bom juiz em causa própria, com a agravante de que a minha cultura na área da psicologia é uma brisa ligeira no universo da pedagogia. Mas tenho uma grande vantagem: fui eu que vivi e sofri a humilhação e serei porventura um testemunho importante na área dos sentimentos que ficaram bem vivos na memória.
Durante os quatro anos da primária tornei-me uma espécie de touro à solta, investindo contra tudo e contra todos, passe o exagero, pela necessidade de demonstrar que não era a pera doce da alcunha, mas antes uma criança cheia de força, de capacidade e de iniciativa para enfrentar todos os da minha classe. Verdade que tinha uma condição física privilegiada e sentia-me o mais rápido nas corridas com o arco, a mergulhar e a nadar nos poços fundos e nas ribeiras e açudes, mas sobretudo, nas lutas corpo a corpo, deitava o adversário ao chão num instante.
Entrei no liceu ainda com esta necessidade de afirmação, embora a alcunha tenha ficado morta e enterrada na escola da aldeia. O pátio de recreio é sempre um lugar de convívio, nem sempre pacífico, aqui e ali surgem pequenas querelas e confrontos. Um dia, logo no primeiro ano, um gabiru muito urbano e bem vestido meteu-se comigo já nem sei como nem porquê, mas levou dois estalos e um pontapé e fugiu a correr não sei para onde. Mas apareceu com um grandalhão apontando para mim como o criminoso que o tinha desfeiteado. Percebi que era o farromba do pátio do primeiro e segundo ciclos, o proclamado líder da miudagem. Aproximou-se sorrindo e confiante: “foi isto que te bateu?” Avançou para mim, mas com uma rasteira e um empurrão ficou estendido no chão e com a minha bota poisada na sua cara. Larguei-o, levantou-se e, hesitante, avançou para mim segunda vez: levou uma canelada, um murro no estômago e foi-se embora cabisbaixo. A partir daí, o líder era eu. Terá sido o Menina que gerou esta agressividade à flor da pele.
As duas aprendizagens que mais me marcaram no liceu, fundamentais na minha humanização e socialização, não tiveram nada a ver com disciplinas, matérias, manuais, exames, nada disso: a primeira teve a ver com o desporto organizado, com os jogos de equipa, com o espírito de grupo, o sentido da cooperação implícita neste tipo de jogos. Percebi aqui, por experiência, que o grupo era mais importante que o eu e que o meu esforço de nada valia se não respondesse aos objetivos do grupo; a segunda aprendizagem ocorreu no quarto ano, quando fui integrado numa turma mista que se repetiu até ao fim do 7º ano. Foi aí que aprendi o género, o feminino, o verdadeiro mundo das meninas. Até ao 4º ano, sempre estiveram num mundo à parte, de tal modo que nunca tive nenhuma relação de proximidade nem mesmo com as que vieram comigo da primária. Hoje até me arrepia, as amizades que podia ter feito e não fiz, mas a “boa pedagogia” de então impedia a socialização e cultura de género desde a infância, muitas vezes até à universidade. Raparigas e rapazes pertenciam a mundos diferentes.
O deporto foi uma paixão de infância que permanece até hoje. As destrezas físicas, o exercício do corpo e dos músculos são importantes para a saúde e o equilíbrio global e o liceu foi uma excelente escola de atletismo, ao mesmo tempo que me proporcionou altas performances no salto à vara, no tiro e na equitação, em parcerias com os estabelecimentos militares. Mas os jogos de equipa, voleibol e futebol, foram determinantes para passar do eu ao nós.
Numa turma de rapazes e raparigas a alcunha de Menina não teria sentido. O seu sucesso como alcunha foi a expressão do machismo de então, de um professor machista e de crianças educadas na cultura machista. As meninas ao tempo não jogavam futebol, não andavam de bicicleta, não iam nadar nas ribeiras, não se esmurravam por tudo e por nada, quando muito puxavam-se os cabelos sempre compridos. Foi neste mundo feminino que me senti diminuído na altura. A aprendizagem do feminino e a cultura de género foram o resultado da educação mista na fase da adolescência e da juventude. A partir daqui as minhas amizades deixaram de ter género. Ainda há países e escolas que advogam a educação segregada, invocando que os ciclos de desenvolvimento são diferentes nos rapazes e nas raparigas. A minha experiência de educando e a minha cultura de pedagogo dizem-me que são visões distorcidas da cultura de género e dos caminhos da pedagogia.

José Afonso Baptista | Ciências da Educação | diário as beiras | 05-05-2022

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