Cristina Ferreira e a Pedagogia – David Erlich 

 

Cristina Ferreira e a Pedagogia 

Num tempo em que tanto se fala do necessário rejuvenescimento etário da classe docente, a participação de Cristina Ferreira na Web Summit diz-nos algo sobre os desafios da Educação em Portugal. 

A conhecida apresentadora falou dos seus anos como professora de História, em que, quando os “little bad guys”, apenas dez minutos passados do início da lecionação, começavam a conversar, a professora Cristina, como punição, mandava fazer uma cópia do manual. 

Cristina Ferreira terá sido uma professora dedicada e apreciada. Creio aliás que, mesmo agora, somente não percebeu o simbolismo das enunciadas práticas pedagógicas – note-se o itálico –, precisamente pelo facto de elas estarem normalizadas. Dar aulas é ainda predominantemente isto. Se há poucas apresentadoras como Cristina Ferreira é, não haverá ainda muitos professores como ela foi? Gostaria, aqui, de desocultar três tipos de práticas presentes no discurso da professora Cristina. 

Em primeiro lugar, a colagem de um rótulo – “little bad guys”, pequenos rapazes maus. “Burros”, “mal educados”, “imbecis”, são ainda palavras que se ouve nas salas de professores deste país fora. Também alguns elogios são problemáticos: “sossegadinho”, “caladinho”, “bem comportado”. Não se aceite a caricaturização da alternativa: esta não passa por nada se poder dizer ao estudante, mas sim elogiar e criticar sempre condutas objetivas e observáveis e nunca o jovem enquanto pessoa. 

Em segundo lugar, o predomínio do método expositivo. Eis a jovem professsora Cristina indignada por, ao fim de dez minutos a falar, os jovens começarem a conversar. Esta é, ainda, a visão predominante que vigora nas nossas salas de aula: o que interessa é dar uma boa aula, e as restantes metodologias são, na melhor das hipóteses, complementares. O Vice-Presidente do Chega, Gabriel Mithá Ribeiro, chega a gabar-se, num ensaio sobre o ensino da História, de apenas dedicar os últimos minutos da aula à intervenção dos alunos. Não é necessário subscrever a posição antagónica, revolucionária quiçá, de José Pacheco, que afirma que a aula não se reforma, abole-se. Basta olhar aqui para o lado, para os Jesuítas de Barcelona: cumprindo todos os pontos do currículo nacional, a exposição do docente ocorre no contexto de uma aprendizagem baseada em projetos, na qual a colaboração dos aprendentes em pequenos grupos é o contexto predominante que solicita, acolhe e dá sentido às lecionações do professor. 

Em terceiro e último lugar, o professor como administrador de punições, no território vigiado que é a transmissão acrítica de conhecimento. Fazer uma cópia do livro – eis a medida de alteração comportamental que a professora Cristina concebeu para garantir conformidade. Mas não serão as avaliações negativas irrrecuperáveis ou os trabalhos para casa em excesso, outros modos, entre tantos ainda vigentes, do professor assumir a função de capataz castigador? 

Confesso que não sei se é possível mudar, no médio prazo, no nosso sistema de ensino, a cultura enraizada do que é um professor, um estudante, um contexto de aprendizagem. Não sei se é possível – mas sei que é urgente.  

Num tempo em que tanto se fala de rejuvenescimento etário da classe docente, seria bom compreendermos que só com uma mudança cultural que abranja também a formação de professores se poderá garantir que não teremos professores novos com velha mentalidade. 

 

David Erlich
Professor de Filosofia e autor do canal de YouTube “A Tua Filosofia
dezembro 2021 

 

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17 comentários

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    • Marcie on 2 de Dezembro de 2021 at 9:19
    • Responder

    Basta olhar aqui para dentro, para os professores que seguem o modelo do Movimento da Escola Moderna: cumprindo todos os pontos do currículo nacional, a exposição do docente ocorre no contexto de uma aprendizagem baseada em projetos, na qual a colaboração dos aprendentes em pequenos grupos é o contexto predominante que solicita, acolhe e dá sentido às lecionações do professor.

      • Maria José Ramalho on 2 de Dezembro de 2021 at 19:14
      • Responder

      Podia ir dar banho ao cão…

    • dany35 on 2 de Dezembro de 2021 at 12:25
    • Responder

    Fazer uma cópia do livro é um castigo? Valha-me deus! A que ponto chegamos!

      • Mirtha on 2 de Dezembro de 2021 at 21:00
      • Responder

      Dito pela sem categoria, sem classe Cristinha Ferreira assim dá a entender.

    • Esteves on 2 de Dezembro de 2021 at 16:31
    • Responder

    Gostava de ver este papagaio falante a enfrentar seis ou sete turmas todos os dias, indisciplinadas, desinteressadas e permanentemente agarradas ao telemóvel a ver os parvalhões do you tub. Este empolado comediante não é capaz de fazer um esforço para compreender que as teorias pedagógicas esbarram com a matéria prima que os professores enfrentam e muitas vezes a linguagem que funciona é a que habitual mente funciona na família destes alunos… Uma cópia é perfeitamente um castigo pedagógico… esta criatura papagueaste acha que vivemos numa sociedade em que não há castigo? A escola deve reproduzir os valores e contribuir para que o aluno se integre na realidade e não na vida lunática deste ave rara nu mundo da filosofia de Capitel… Um exibicionista da teoria pedagógica a debitar aos molhos no deserto lunar…

      • Luluzinha! on 2 de Dezembro de 2021 at 21:01
      • Responder

      Totalmente de acordo. Preparava-me para comentar sensivelmente nos mesmos moldes. Sendo assim, já não vale a pena.

        • Mirtha on 2 de Dezembro de 2021 at 21:16
        • Responder

        Quando ouço e leio que há professores que levam na cara dos alunos. o único comentário que me vem à boca é: Muito bem merecido…. pois cada um tem aquilo por que faz por merecer!

      • Mirtha on 2 de Dezembro de 2021 at 21:14
      • Responder

      Comentário de baixo nível indigno de um professor a demonstrar muita “dor de cotovelo”. Pobres alunos que passam pelas tuas mãos!

      • Carol on 4 de Dezembro de 2021 at 15:45
      • Responder

      É triste. Muito triste. Que haja alguém que, perante um texto articulado, se dedique ao insulto. Eu não concordo com tudo o que este miúdo diz. Mas o que me choca é que você venha para aqui debitar insultos… ou seja, a ter o tipo de falta de respeito que repreende aos seus alunos.

      • ProfTuga on 4 de Dezembro de 2021 at 15:51
      • Responder

      Só para dizer que este rapazito não fala “de fora”, ele deve ter tantas turmas como o colega… ora repare:

      https://www.rtp.pt/noticias/galeria/pais/photomaton-cativar-para-a-filosofia_1361546

    • Tiago on 2 de Dezembro de 2021 at 18:05
    • Responder

    Penso que a metodologia de ensino depende da disciplina e do conteúdo: uma vezes é necessário o professor assumir a exposição em interação com os alunos ou não, outra vezes basta cinco minutos de introdução do tema para os alunos realizarem a atividade, também há espaço para aula invertida ….
    Extremismos é que não.
    Equilíbrio!
    Não há UM método de ensino.
    Atenção: o método pode ser ótimo mas pode não resultar se os alunos não se quiserem envolver, a motivação não está só do lado do professor (50 – 50).

    • Pedro Castro on 3 de Dezembro de 2021 at 1:21
    • Responder

    Este post é um verdadeiro exemplo notório da mentalidade construtivista fundamentalista que está a matar a escola pública.

    • Tanto Pedagogo on 3 de Dezembro de 2021 at 19:33
    • Responder

    O que me faz realmente confusão é a quantidade de filósofos e pedagogos que passam o tempo a criticar a pedagogia dos outros… É assustador o tempo que gastam a sugerir coisas inúteis , algumas mesmo indesejáveis e, pior, a persuadir os outros de que devem segui-las…
    Vão dar aulas, empreender, fazer qualquer coisa útil para a sociedade… E para o país!

      • ProfTuga on 4 de Dezembro de 2021 at 15:53
      • Responder

      Mas este miúdo David, com quem já me cruzei nestas lides, é professor!!! E põe em prática o que apregoa.

      https://www.rtp.pt/noticias/galeria/pais/photomaton-cativar-para-a-filosofia_1361546

  1. […] Continue a ler […]

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