O novo “abre-te sésamo!” – Santana Castilho

 

Ocorreu-me a expressão mágica que abre o esconderijo de um tesouro na história de “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, ao ler o Público de 23 de Junho. “Melhores professores fariam desaparecer até dois terços das notas negativas”, era o sugestivo título de um texto de Samuel Silva, referindo que um estudo “mediu pela primeira vez o efeito que um professor tem no desempenho dos estudantes das escolas públicas”.
O recurso às metodologias e aos modelos agora usados não é novo, contrariamente ao que a leitura do texto possa sugerir. Cito, por outros, Hanushek, Eric A. 2011. Valuing Teachers: How Much is a Good Teacher Worth? Education Next, 11 (3): 40-45. Como não é nova a controvérsia científica que a sua aplicação tem suscitado, evidenciada pela literatura publicada sobre o tema. O que é novo é o desenvolvimento informático, que permite hoje manipular com facilidade enormes bancos de dados.
A variável crítica do ousado estudo é o denominado VAP (Valor Acrescentado do Professor), indicador que permitiria calcular o impacto de cada professor no resultado dos alunos. Este VAP, esclarece o texto em análise, “calcula-se medindo o desempenho de um aluno numa prova nacional antes de ter aulas com um determinado professor e novamente, numa outra prova nacional, após ter trabalhado com esse docente”, sendo que, continuava o texto, a “metodologia usada permite isolar os efeitos de outros factores que influenciam as aprendizagens, como a formação dos pais, o nível de rendimento familiar ou factores ligados à própria escola”.
A sofisticação da metodologia estatística usada e a dimensão dos dados tratados (1,7 milhões de classificações atribuídas a Português e Matemática, ao longo de uma década, em provas finais dos 4º, 6º e 9º anos, por mais de 40 mil professores), não chega para mascarar a parcialidade de uma análise que pretende isolar de outros impactos o impacto da qualidade dos professores nos resultados dos alunos, para concluir que, se uns melhoram e outros pioram, os responsáveis são … os professores. Com efeito, o estudo permite conclusões substantivas. Cito as mais “convenientes” aos pregadores de determinadas pedagogias: os maus resultados dos alunos devem-se a “piores professores”; “o professor mais determinante é o do ano do exame”; “manter um professor com a mesma turma ao longo de todo o ciclo de estudos não parece ter impacto nos resultados dos alunos”.
Lamento que ilustres investigadores tenham, assim, ferrado os professores antes de, pelo menos, terem medido, com um outro VAP qualquer, o impacto nos resultados provocado por políticas educativas desastrosas, pelas vergonhosas desigualdades sociais que persistem na nossa sociedade e pelas desumanas condições de trabalho, que infernizam a vida dos docentes. Alcandorar o professor a factor único determinante para a eficácia das aprendizagens é música celestial para determinados ouvidos, porque remete para o limbo da irrelevância tudo o que 47 anos de democracia decadente não mudou.
Que avaliação farão os autores do estudo sobre as métricas internacionais da OCDE, que evidenciam expressivos incrementos dos resultados médios dos alunos portugueses ao longo dos últimos anos, apesar de tantos professores “piores” existentes?
Que dizer sobre conclusões tão temerárias sobre a qualidade dos professores, construídas por um estudo que deixou fora da sua análise a maioria das disciplinas e a esmagadora maioria dos docentes em exercício?
Se substituirmos os melhores professores de Singapura pelos piores professores da Guiné e vice-versa, que acontecerá ao VAP de uns e de outros, e aos resultados dos alunos?
É preocupante a promoção da ideia de que o futuro se construirá com vantagem, substituindo as relações pedagógicas humanizantes pelo novo iluminismo das aprendizagens mediadas pelas tecnologias e pelas enviesadas correlações estatísticas, que chegam ao êxtase de apurar a qualidade de um professor pela simples aplicação de uma fórmula matemática.
Deixemos que as decisões se fundamentem mais nas ciências relevantes para a Educação (Neurociência, Psicologia Cognitiva e demais ciências humanas) e menos na Economia da Educação e na Estatística. Contribuamos para que as decisões sejam tomadas sem escorraçar da equação o simples senso comum e sem sugerir práticas inquisitoriais para os que discordam do mainstream.

In “Público” de 7.7.21

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7 comentários

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    • Sofia on 7 de Julho de 2021 at 10:05
    • Responder

    Brilhante, como sempre! O que me choca cada vez mais são os influenzers que estão cada vez mais a minar a nossa classe, como se não bastassem as campanhas do tempo do governo de José Sócrates, implementadas pela Ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues. Os jornais ditos de referência estão agora ao serviço desta campanha, ao publicarem este tipo de artigos. Serão assim recompensados os seus autores pelos serviços prestados…

      • Macho on 7 de Julho de 2021 at 16:44
      • Responder

      professor karamba, tu és insuficiente… de certeza

      • Alô Mestre Karamba on 7 de Julho de 2021 at 18:40
      • Responder

      O professor Karamba deve ter algum problema – em primeiro lugar não deve haver avaliações de professores,.. já foram avaliados na universidade,… mas já que tens problemas com as avaliações de 9 ,5 etc,.. proponho o seguinte ,.. vamos todos avaliar em todas as profissões,…. quanto ao Santana Castilho , é um grande pensador e clarividente no assunto,… mas vamos começar a avaliar o professor Karamba na profissão dele,…kkkkk
      Nota : se alguém não gostar de ti ou não tiveres cunha e te derem má nota não te queixes,…kkkkk

        • Sardão pró Pensador Pintelko on 7 de Julho de 2021 at 21:28
        • Responder

        Avaliar o Professor Karamba na profissão dele? Eh, eh, eh, eh!!!!… Ó Alô, o Karamba trabalha na sardoaria, sempre a klevar! Tem nota máxima todos os dias! Ele está sempre a encher! Sempre a aviar!

    • Anselmo Santos on 7 de Julho de 2021 at 10:06
    • Responder

    …. e nem sequer se referiu a relação entre o nível de dificuldade das provas nacionais de um e de outro ano, pois e um ano para o outro, a dificuldade das provas tem variado, e será que a monitorização deste fator, que se pode medir pelo desempenho médio dos alunos entre esses dois anos, também foi tido em conta?
    Não digo que foi o caso, mas vindo a ver, todos os dias, e nas mais variadas situações, a produção de resultados em função dos objetivos que se pretende atingir, obtidos através da distorção por desleixo, ou quiçá intencionalmente, de procedimentos e metodologias cientificamente adequadas.

    • Anselmo Santos on 7 de Julho de 2021 at 10:11
    • Responder

    Adenda : Correção do meu texto anterior
    …. e nem sequer se referiu a relação entre o nível de dificuldade das provas nacionais de um e de outro ano, pois de um ano para o outro, a dificuldade das provas tem variado, e será que a monitorização deste fator, que se pode medir pelo desempenho médio dos alunos entre esses dois anos, também foi tido em conta?
    Não digo que foi o caso, mas tem-se vindo a ver, todos os dias, e nas mais variadas situações, a produção de resultados em função dos objetivos que se pretende atingir, obtidos através da distorção por desleixo, ou quiçá intencionalmente, de procedimentos e metodologias cientificamente adequadas.

    • Luluzinha! on 7 de Julho de 2021 at 11:26
    • Responder

    Cada texto deste senhor eleva a minha profunda admiração pela sua mente criticamente brilhante e analítica!

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