E tu, já trabalhaste num Centro de Explicações? – João Costa

 

Um professor, já se sabe, não sabe fazer nada, sabe dar aulas e pouco mais. E assim que puder, assim que tiver uma colocação, vai-se embora, por isso, e portanto, nem pensar em dar trabalho a um professor.
Estas duas premissas resumem a condição do professor desempregado. Porque é verdade, um professor não sabe nada, sabe dar aulas e, no entanto, forma electricistas, engenheiros, investigadores, polícias, médicos mas também pais e mães, agentes políticos e sociais, as manifestações e protestos do amanhã e, em suma, a sociedade do amanhã.
Para além disto, um professor não serve para nada, por isso porquê dar trabalho a um professor?
E depois toda a gente sabe como é uma questão de tempo até sermos colocados, mesmo se esse tempo são 20 ou 30 anos até à eventualidade de um Quadro de Zona, Zona essa com largas centenas de quilómetros mas ao menos o trabalho garantido, e quanto a Quadro de Escola só já muito perto da reforma e isto se calhar, se tivermos sorte, se Deus quiser e mesmo a tempo de morrer.
E entre não servir para nada e estar à espera, e porque ninguém quer morrer à fome mesmo se é uma questão de tempo, é claro que é uma questão de tempo, numa outra vida um rapaz que não eu correu todos os Centros de Explicações dos arredores entre entrevistas e currículos para no fim ficar a trabalhar entre dois Centros.
A recibos verdes, pois claro, se trabalhas, ganhas, mal, se não trabalhas, não ganhas, e a vida é assim, todos temos de começar por baixo e todos começamos por baixo na esperança de um dia subir, o raio do dia é que nunca mais chega nem é suposto chegar. Mas essa parte nós ainda não sabemos. Mas, lá no fundo, já desconfiamos.
Fruto da instabilidade. Da insegurança. Da precariedade. Da desigualdade. Da injustiça de quem vê as pessoas em redor calmamente instaladas quando se conhece A e B e C e como nós não conhecemos ninguém, paciência, e nada de apontar o dedo ou acusar não vá o pouco que temos acabar, um simples passe de mágica e já está, acabou.
E quanto a ensinar Biologia, esquece lá isso, Química, Física, Matemática, Inglês e Português e mal estaríamos se alguém precisasse de explicações de Ciências ou Biologia.
Os livros? Entre os livros de texto e os livros de exercícios de cada escola tive de os comprar eu.
O investimento inicial? Já gastei mais de 150 euros e ainda não comecei sequer a trabalhar. E de caminho a dona de um dos Centros ainda se enganou num manual, na livraria não mo aceitaram de volta e ainda tive de comprar outro.
E porque ninguém trabalha de borla e o prejuízo já é muito, aqui vai a oferta, coincidência ou não mas igual, dos dois Centros: 3 euros à hora independentemente do número de alunos.
E quanto é que cada aluno paga por uma hora? 20 euros. Contas feitas, com 3 alunos recebo a módica quantia de 3 euros e o Centro cerca de 57 euros.
O Centro declara ao fisco 3 euros, pagos ao professor que andou a queimar as pestanas às custas de não perceber patavina de Química ou Física (se os alunos soubessem), e o Centro fica com o resto por debaixo da mesa, literalmente.
Quanto aos alunos, coitados dos alunos, fracos academicamente e tão desmotivados como o professor à sua frente, todos esperançados por melhores dias, uns com boas notas, outros com mais dinheiro no bolso.
E não fosse a exigência constante dos pais por resultados não menos que excelentes e talvez o ridículo não passasse a absurdo.
E quiçá os 20 euros por hora fossem melhor gastos a explicar aos pais a necessidade de uma alternativa para os filhos que não a universidade, a mesma universidade para a qual não querem, por favor, ir.
O espaço físico de cada Centro contribuiu, e de que maneira, para o ridículo da situação: um dos “Centros” era uma arrecadação por debaixo de um vão de escada de um prédio, mas onde o nome da Doutora Directora, pomposamente escrito na porta, metia respeito aos mais destemidos; o outro era uma garagem. Sim, leram bem, uma garagem onde perdi as vezes aos lençóis estendidos à porta, lençóis esses da vizinha do 1° andar e prontamente arrancados à força da fúria e dos impropérios pela dona do Centro.
Diplomacia? Zero.
A diplomacia reservava-se para quando os miúdos chegavam 15 minutos atrasados e o professor com ordem para se esconder em parte incerta. A hora era cobrada à mesma e os alunos teriam de voltar no dia seguinte.
Mas como os contratos eram todos de boca, a coisa, perdão, o esquema não funcionava sempre, acabando irremediavelmente em mais insultos e impropérios seja à porta da garagem, perdão, do Centro, seja à porta dos alunos, eu sei onde é que tu moras e a vizinhança a lamber os beiços com a peixarada à sua frente.
Mesmo assim, valia a pena o esforço, os alunos aprendiam a chegar a horas e o Centro encaixava mais dinheiro em conta.
Quanto ao professor, nem 3 euros para amostra: não trabalhou, não ganhou e aqui é tudo de boca.
Um mundo de faz de conta onde o professor não é professor, é um colega, um colaborador, um empresário por conta própria, um “entrepreneur, diz ele para os amigos à mesa do café enquanto conta os trocos e pede dinheiro emprestado, arranja aí 5 cêntimos para pagar o carioca de limão, obrigado.
Um mundo de faz de conta onde o professor miseravelmente pago é responsável pelos bandos de pardais dos miúdos do 2.° e 3.° ciclos que só pagam 5 euros à hora para descanso dos pais depois das aulas, os mesmos pais à espera que os trabalhos de casa já estejam feitos e claro que não estão feitos se os miúdos querem lá saber do explicador. Não, os miúdos querem é correr e como eu nunca tenho tempo de lhes fazer todos os trabalhos, há sempre um pai, ou uma mãe mas invariavelmente um pai, que se queixa e eu com as orelhas para baixo.
Já quem gere estes Centros de Explicações não tem as orelhas para baixo, a vida corre-lhes bem e já perdi a conta às viagens ao estrangeiro e aos cocktails ao pôr-do-sol partilhados entre o Insta e o Face e o mundo é mesmo dos espertos.
Porque entretanto já passaram 14 anos desde que fugi desta realidade mas as fotografias estão bem presentes e cada vez em maior número.
Para bem da minha sanidade mental, deixei de seguir esta gente.
A economia é paralela. Inevitavelmente paralela. A contabilidade existe apenas para justificar o dinheiro pago aos explicadores. O resto, que não é resto nenhum, fica todo para as senhoras directoras e se passei aqui metade do tempo a falar de dinheiro então é porque estou de volta a casa e em casa nunca temos dinheiro, futuro, por 5 euros acabam amizades de anos, a vida é uma pôrra e não vamos a lado nenhum.
Talvez aquilo que mais me surpreende seja à surpresa das senhoras directoras quando não voltei em Setembro. Surpresa não por não voltar, mas por ter encontrado uma alternativa. Porque os professores, já se sabe, os professores não servem para nada e qualquer um sabe dar aulas.

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3 comentários

    • F.S. on 19 de Julho de 2021 at 11:19
    • Responder

    J. Costa, por tudo isso, é inadmissível não haver mais união na luta por melhores condições/direitos profissionais dos professores. Como é possivel um grupo profissional estar tão desmotivado para a luta?

      • Vera on 19 de Julho de 2021 at 15:38
      • Responder

      Descrição perfeita da vida de um Professor que nasceu com o “cu” virado para a Lua (quase todos!!!)

    • Nuno Sá on 19 de Julho de 2021 at 17:03
    • Responder

    Texto estranho… Se diz no início que não é o próprio, porque diz no fim que é ele mesmo? Tinha que manter a coerência. Quanto aos valores, podia sempre dar ele as explicações. Nem todos os centros de explicações são de chicas-espertas como falou (em 2 casos, denegriu uns milhares de locais de trabalho, ou de ajuda aos alunos, onde mais pela transpiração de quem lá trabalha e quem coordena, se conseguem resultados…). De resto, apesar de isto ser uma crítica à economia paralela (será que manda vir lá a casa um biscateiro arranjar a luz ou uma máquina e pede recibo?…), não tem nada a ver com professores, porque maus empregos e mal pagos, muita gente tem. [E eu não estou no ramo das explicações.]

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