Escolas ficarão abertas, por falta de acção – Alberto Veronesi

 

Escolas ficarão abertas, por falta de acção

Quando há dias escrevi que se não se tomassem medidas mais restritivas no regresso à escola, considerando o relaxar de medidas no Natal e Ano Novo, poderíamos rapidamente chegar ao descalabro! Aqui estamos, com mais de dez mil casos de infecção diária.

Na altura, o que eu alegava era apenas prudência no regresso às aulas, para que se conseguisse ter uma maior noção da consequência das medidas do Natal na evolução da pandemia. Uma medida que poderia ter sido adoptada, de forma a mitigar a mais que provável subida de casos activos e infecções diárias, seria adiar em uma semana o início do segundo período a nível nacional, ou seja, iniciar-se-ia a 11 de Janeiro.

Em seguida, nos conselhos de risco extremamente elevado e muito elevado o início poderia acontecer no dia 11 de Janeiro, mas só para o pré-escolar, 1.º e 2.º ciclos, sendo que o 3.º ciclo e secundário poderiam ficar em ensino à distância e regressariam mediante novas avaliações de casos por concelho. Na altura, depois de ler vários especialistas, apontei que só com uma entrada retardada no regresso às aulas é que poderíamos mitigar o risco de aumento de casos devido a um Natal mais relaxado. Caso contrário, seria o descalabro.

Quando, nos últimos dias, constato que, muito provavelmente, iremos regressar ao confinamento geral como aconteceu em Março, mas que desta vez as escolas manter-se-ão abertas, não consigo perceber como é que isso será possível. Mesmo que queiramos alinhar na retórica de que na escola os contágios não se dão — sendo que fica por esclarecer o facto de não se ter testado, gratuitamente, a comunidade escolar com os testes oferecidos pela Cruz Vermelha —, fico espantado como não se pensa que esses alunos, e em muitos casos os respectivos pais, terão de se deslocar.

A grande maioria fá-lo-á em transportes públicos, onde, como se sabe a maioria das medidas de protecção pessoal são impraticáveis. Se juntarmos a isso o facto de, no caso dos alunos mais velhos, muitos deles continuarem a resistir à adopção de medidas de pessoais de contenção, nomeadamente o uso inadequado da máscara e o distanciamento físico fora das escolas, então temos algumas das razões para aqui termos chegado.

Hoje, percebo as razões que movem a decisão de manter as escolas abertas a todo o custo. Na verdade, desde Abril de 2020, quando o primeiro-ministro garantiu que em Setembro todos teriam o seu computador, o que foi feito na preparação das comunidades educativas para uma possível 2.ª ou 3.ª vaga e consequente confinamento, foi manifestamente pouco.

Os anúncios foram muitos, os valores apresentados para a Transição Digital na educação eram respeitáveis, mas a realidade foi bem diferente ao longo do 1.º período. Os kits tecnológicos tardaram a chegar às escolas, final do primeiro período, e em número manifestamente insuficiente às necessidades apuradas durante o primeiro confinamento.

Na sexta-feira, preenchi um inquérito referente ao Plano de Capacitação Digital de Docentes que visava apurar o meu nível de proficiência global. Este tardio apuramento por parte da tutela mostra bem o atraso que leva todo este processo de transição e explica claramente o porquê de, agindo politicamente e não respeitando as indicações dos especialistas, o Governo não querer fechar as escolas.

Neste momento as ferramentas de que dispomos para o E@A são as mesmas que disponhamos em Março e isso ficou provado na altura que é manifestamente insuficiente para o desenrolar eficiente deste tipo de ensino.

Esta falta de meios é a principal razão para as escolas terem de se manter abertas num futuro confinamento que poderá ser já no próximo dia 13. Sabemos que as mais recentes evidências científicas apontam uma menor probabilidade de propagação e contágio entre as crianças, sobretudo até aos 12 anos. Mas o que defendi anteriormente, passar 3.º ciclo e secundário para E@A e manter os restantes ciclos em ensino presencial, poderá ter, na fase em que nos encontramos, efeito diminuto, ma ainda assim é melhor que manter todas abertas.

Não ignoro, como aliás escrevi há tempos que a escola é hoje um dos maiores suportes socioeconómicos, mas considerando a situação pandémica actual exige-se seriedade nas decisões que se tomem. É preciso coragem, mais humanismo e menos política na decisão.

Sugiro que:

  • Se inclua com urgência toda comunidade escolar na primeira fase de vacinação;
  • Se fechem as escolas do 3.º ciclo e secundário passando para E@A;
  • Interrompam por uma semana o ensino presencial dos restantes ciclos para que toda a comunidade possa ser testada.

Não agir agora poderá obrigar a reagir tarde num futuro próximo.

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6 comentários

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    • JoaoNogueira on 10 de Janeiro de 2021 at 18:01
    • Responder

    Enquanto professor com um horário exclusivamente composto por disciplinas da componente técnica de cursos profissionais, sou terminantemente contra a passagem generalizada para um regime no presencial… Porquê? Porque me recuso ao ensino “faz de conta” e não é com pseudo trabalhos de pesquisa e com PowerPoints plagiados que formamos jovens para posições de técnicos intermédios que o nosso país tanto precisa!

    Agora, obviamente que há 2 realidades incontornáveis: 1o) disciplinas de índole mais teórico entre o 7′ e o 12’anos de escolaridade podem passar para um regime misto (1 presença semanal na escola para aferir a realização das atividades online da semana anterior e o lançamento das atividades da semana seguinte, bem como a realização de testes de avaliação, as restantes aulas em videoconferência!) 2o) TODOS os professores e funcionários devem ser vacinados nesta primeira fase, permitindo assim um mais tranquilo funcionamento das atividades lectivas presenciais.

    Infelizmente constato que a maioria dos defensores do confinamento escolar o fazem não por convicção, mas por vontade de ir para casa fazer pouco ou nada e continuar a receber integralmente o seu salário sem contemplações… Somos infelizmente uma classe auto-centrada e individualista em que a maioria dos docentes pouco ou nada se preocupa com aquilo que deveria ser mais importante, a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos!

    Perdoem-me o desabafo, Mantenham-se saudáveis… Mas não fujam às vossas responsabilidades!!!

      • PROFET on 11 de Janeiro de 2021 at 23:08
      • Responder

      O João é que é autocentrado, porque está-se a borrifar para a saúde dos outros. Talvez quando lhe calhar a doença e/ou a morte por covid a si ou a um familiar ou amigo seu, talvez nesse momento mude de opinião. E constata que os professores querem ensino à distância para fazerem pouco ou nada… Tenha vergonha! durante o primeiro confinamento trabalhei o dobro das horas e fiz muitas diretas. Durante a minha vida profissional, sempre em precariedade, com sucessivos contratos, já passei por 30 escolas, por vezes a trabalhar em 2 e 3 escolas, manhã, tarde e noite, a fazer 5000 km por mês (à minha conta), sempre com mais de 10 turmas e até 22… O João precisaria de trabalhar muitos anos para trabalhar tanto como eu trabalho num só ano. Quem foge às responsabilidades, é o João, por desrespeitar a saúde e avida dos outros. Respeitinho, é muito bonito!

    • SempreAlerta on 10 de Janeiro de 2021 at 19:14
    • Responder

    As escolas vão ficar abertas porque, entre outras ilustríssimas razões, os computadores portáteis para os alunos levarem para casa, tão prometidos, com grande pompa, pelo TBR, estão a chegar a conta-gotas às escolas … e mais … ainda estamos para saber quem vai configurar e gerir tal parafernália tecnológica …
    Pelo que sei, muito nem saíram ainda da caixa … talvez para a próxima pandemia estejam em condições de se entregar aos alunos …
    E mais digo … quando se escreve neste texto “Infelizmente constato que a maioria dos defensores do confinamento escolar o fazem não por convicção, mas por vontade de ir para casa fazer pouco ou nada e continuar a receber integralmente o seu salário sem contemplações” … é pura mentira!
    No primeiro confinamento, cheguei a trabalhar, em prol da escola, até às 22 horas … se isto é não querer fazer nada …
    Tenham juízo!!!

      • farto de emplastros do governo on 10 de Janeiro de 2021 at 22:37
      • Responder

      Pois a minha única convicção para defender o confinamento chama-se salvar vidas. Quanto a trabalhar foi no período de confinamento que mais trabalhei, mas não me importo de o voltar a fazer se isso significar salvar amigos, familiares e desconhecidos.

    • cunha on 10 de Janeiro de 2021 at 19:44
    • Responder

    ninguem me dá valor

    nao trabalho ate as 22h ..lamento

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