Da negligência das palavras à (des)lealdade institucional – Isabel La Gué

 

Qual elefante numa loja de porcelana, o incómodo do ministro da Educação é óbvio: como explicar à população portuguesa, sequiosa do regresso dos nossos jovens à normalidade da vida escolar, que esse regresso é (também) ameaçado, nalgumas zonas do país, entre as quais Lisboa, pela (quase total) inexistência de candidatos às funções docentes?
No dia 30 de setembro, em entrevista à revista Visão, pode ler-se:
“[…] Interrogado sobre a falta de professores e o arranque do ano letivo com turmas sem vários docentes, Tiago Brandão Rodrigues diz que ‘a substituição dos professores é um sistema muito oleado’. ‘Conseguimos substituir os professores com relativa celeridade. Todas as semanas correm reservas de recrutamento que substituem os professores que eventualmente estejam num sistema de proteção por baixa médica ou que pertençam aos grupos de risco’, explica. ‘Sabemos que as necessidades que temos de professores e a oferta disponível são uma luva e uma mão que não encaixam perfeitamente’, admite porém.
Acerca de um caso concreto, na Escola Rainha Dona Amélia, em Lisboa, onde algumas turmas arrancaram o ano com falta de professores em seis disciplinas, o ministro é perentório: mais do que falta de diligência, houve ‘negligência’. ‘A diretora da escola foi negligente na substituição [dos professores] e não pediu aquilo a que tinha direito. E os serviços do Ministério da Educação contactaram a diretora para entender o que tinha acontecido. As pessoas erram, nós entendemos, mas a escola não fez o trabalho que devia ter feito’, afirma. […]”
Muitas serão as questões de ordem ética que tais palavras, proferidas pelo mais alto responsável da Educação, suscitam junto de muitos de nós. Tremendo, ou mesmo irrevogável [1], é o estrago produzido. Depois de ditas, as palavras, cuidadosa ou negligentemente escolhidas, deitam por terra qualquer hipótese de redenção. A verdade, essa, parece ficar absoluta e liminarmente secundarizada.
Fazendo um verdadeiro esforço de contenção e de objetividade, considero que urge esclarecer o seguinte, para que não restem quaisquer dúvidas:
A falta de professores na Escola Secundária Rainha Dona Amélia (ESRDA) é um facto que persiste, à data de hoje, e que seguramente não resulta de eventual falha, a ter acontecido, da atual diretora. Importa esclarecer que existe um problema de fundo no sistema educativo português; um problema que não data, apenas, da anterior legislatura, mas que tem sido negligenciado de forma sistemática por mais do que um titular da pasta da Educação. Qual elefante numa loja de porcelana, o incómodo do ministro da Educação é óbvio: como explicar à população portuguesa, sequiosa do regresso dos nossos jovens à normalidade da vida escolar, que esse regresso é (também) ameaçado, nalgumas zonas do país, entre as quais Lisboa, pela (quase total) inexistência de candidatos às funções docentes?
É disto evidência a recente publicitação da 4.ª Reserva de Recrutamento, disponível no sítio da Direção-Geral da Administração Escolar [DGAE] – dos nove horários pedidos pela diretora da ESRDA, apenas um terá sido preenchido…
Tal como noutros tempos, a política parece ser a de dividir para reinar. Os diretores são elogiados quando convém e descartados à primeira oportunidade
Na “máquina oleada” do Ministério da Educação falta a matéria-prima sem a qual o sistema educativo entra em falência: os professores. Assobiar para o lado e fingir que tudo corre sobre rodas, assumir que as falhas são humanas e da gestão de quem está no terreno, é não só desleal, como preocupante: todos sabemos que não será de um ano para o outro que se repõem os quadros docentes nas escolas. Há que repensar a carreira desde o seu início. Por que razão não são os cursos de ensino atrativos para os candidatos ao ensino superior? O que tem sido feito para dignificar a carreira docente de modo a torná-la, como deveria ser, estimulante e apelativa, de difícil acesso, até? Uma carreira a que só os melhores pudessem aspirar… Estamos muito longe de tudo isso, infelizmente.
Tal como noutros tempos, a política parece ser a de dividir para reinar. Os diretores são elogiados quando convém e descartados à primeira oportunidade. Os professores, de tão maltratados, começam a acreditar que a solução é desistir, ou fazer por merecer os maus tratos. Os pais querem acreditar nas escolas, mas abrem-se brechas de insegurança, pois a confiança não é cega nem inabalável. Muitos alunos continuam, e mais ainda continuarão no futuro próximo, sem professor(es).
À gritante falta de soluções, soma-se o silêncio dos inocentes. Todos nós.
[1] Programa Irrevogável, Visão
Professora e presidente do Conselho Geral da Escola Secundária Rainha Dona Amélia, Lisboa

 

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19 comentários

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    • Ricardo on 3 de Outubro de 2020 at 14:45
    • Responder

    Concordo, genericamente. No entanto, tem afirmações curiosas,
    “Os diretores são elogiados quando convém e descartados à primeira oportunidade.”
    Se assim é, os diretores estão muito confortáveis com isso. Não há uma manifestação de discordância, individual ou coletiva, não ocorreu uma demissão!!
    Apenas a preocupação em garantir o tacho e o atual estado de coisas.
    Se deixam assim humilhar-se, significa que se venderam por 750€/mês ( mais umas viagens e jantaradas bem pagas…) e por ficarem a vida toda longe dos alunos?
    Nota: o medo que o ME faça regressar a democracia às escolas, faz com que baste mandar ladrar, que correm logo a morder. Não se preocupem, amestrados como estão, o ME garatir-vos-á o tacho até ao final da vida!
    Os professores podem esquecer, não haverá eleições nas escolas, nos próximos 20 anos. As escolas continuarão a viver “no 24 de abril “.
    Esta é uma realidade MUITO pior que a covid.

    • Prof Possível (aka Maria Indignada) on 3 de Outubro de 2020 at 15:12
    • Responder

    Nunca pensei que isto fosse possível.

    A não divulgação dos casos que ocorrem nas escolas.

    É brutalmente desonesto. É…, nem sei, difícil adjetivar tudo isto.

    Inacreditável.

    Mas eles acham que os pais e profs são assim tão estúpidos?

    • OSVALDO LUCAS on 3 de Outubro de 2020 at 15:18
    • Responder

    A “defesa” concreta da Diretora pareceu-me fraquinha e/ou incompleta. Meia dúzia de factos mais concretos e documentados e o Ministro poderia ter de “pedir desculpa” por ter sido mal informado.

    • Ana on 3 de Outubro de 2020 at 15:31
    • Responder

    Acho que os Diretores deviam levar mais do Ministério.
    Só assim percebiam que o seu papel de kapos é muito frágil.

    *Um kapo ou funcionário prisioneiro era um prisioneiro em um campo de concentração nazista designado pelos guardas da SS para supervisionar o trabalho forçado ou executar tarefas administrativa

    • Prof Possível (aka Maria Indignada) on 3 de Outubro de 2020 at 15:43
    • Responder

    Independentemente dos factos apresentados pela diretora, não me parece difícil acreditar nas suas palavras.

    Está visto que a mentira é prática corrente para “não criar o pânico e os palermas do costume, com a sua inocente ignorância, continuarem as suas desprezáveis vidinhas” – Trump.

    • Ana Tavares on 3 de Outubro de 2020 at 15:51
    • Responder

    Concordo em absoluto com a opinião do Ricardo.

    • concordo on 3 de Outubro de 2020 at 18:57
    • Responder

    Concordo com o Ricardo. Se se unissem ver-se-iam obrigados a que as Direções voltassem a ser, novamente, eleitas como outrora e, o Ministério deixaria de mandar a seu bel-prazer.

    • Alexandre Oliveira on 3 de Outubro de 2020 at 19:02
    • Responder

    Ricardo, nem mais. A democracia desapareceu das nossas escolas e a maioria dos diretores sao incompetentes, e regem-se por interesses políticos, religiosos ou sexuais. É a mediocridade que temos.

    • Fernando, el peligroso de las verdades. A pôr o invejoso no devido lugar. Fique manso on 3 de Outubro de 2020 at 19:54
    • Responder

    O zRicardo é invejoso e palhaço. Se não o fosse não dizia mentiras. Esquece-se que o suplemento de muitos diretores é apenas de 200 brutos.
    Não tem é yomates para se candidatar a diretor. Levava banhada. Se calhar até já a levou numa escola perto de si.
    Anda de mal com a vida e os culpados são os diretores!

    • Fernando, el peligroso de las verdades. A dizer que o Oliveira está msluco on 3 de Outubro de 2020 at 19:58
    • Responder

    0 Alexandre zOliveira precisa de médico urgentemwnte. O homem diz que os diretores se movem por interesses sexuais, também.
    O que é que é isso? Podias explicar?

    • Fernando, el peligroso de las verdades. A dizer ao Lucas que tome conta da familia ao sábado. on 3 de Outubro de 2020 at 20:07
    • Responder

    O Lucas Osvaldo é também outro cromo. Em vez de no sábado estar a tomar conta da família, não anda para aqui a ditar bitaites. O homem é tão ingénuo que não pensa que um ministro mzcaco nunca pede desculpa a ninguém.
    Sábado é dia da familia, não de bitaites, certo?

    • Fui on 3 de Outubro de 2020 at 20:59
    • Responder

    Diretores a 200€!!! Ah!ah!ah!
    Só se for na feira da ladra!!!
    Diga quais, onde estão os “muitos “? Em que agrupamentos?
    Mas como “perigoso” é um dos comissários políticos salazarentos, percebe-se!
    Aliás, a linguagem é manifestamente de … “diretor “…
    Tenha um bom fim-de-semana.

    • OSVALDO LUCAS on 3 de Outubro de 2020 at 22:16
    • Responder

    Bem vindo ao mundo dos bitaites, Fernando Inofensivo.
    Claro que não pede desculpas, se é que o ministro é macaco. Desculpas de quê? A diretora foi acusada de negligência e nada diz além de se mostrar uma virgem ofendida. Um pouco como as suas palavras, inofens… irrelevantes.

    • Fernando, el peligroso de las verdades. Diretores a 200 euros on 3 de Outubro de 2020 at 22:54
    • Responder

    200€ até 300 alunos
    300€ até 600
    450€ até 900
    650€ até 1500
    750€ mais de 1500

    • ... on 3 de Outubro de 2020 at 23:12
    • Responder

    Quais são os agrupamentos com menos de 300 alunos?
    Nem antes das fusões!!!!!

    • ho no no on 4 de Outubro de 2020 at 1:34
    • Responder

    Não seja mau. Há bastantes mesmo.

    • Matilde on 4 de Outubro de 2020 at 9:16
    • Responder

    E a directora já se demitiu das suas funções?

    Não? Então, está tudo bem: A suposta indignação pelas alegadas palavras do Ministro já passou; o Conselho Geral veio em defesa da directora, como se esperaria e o Ministro pode continuar a debitar dislates…

    Afinal, está mesmo tudo bem e tudo dentro da”normalidade” a que já nos habituámos… A normalidade é isto em Portugal e está muito bem ilustrada por este episódio… Qual é o espanto??? Na verdade, nada de extraordinário aconteceu…

    (E, contudo, ocorrem-me tantos adjectivos para qualificar os personagens desta história…).

    • Falcão on 4 de Outubro de 2020 at 19:52
    • Responder

    Cara Isabel Le Gué,

    Quero em primeiro lugar dizer aqui, publicamente, para quem não a conhece, que eu posso testemunhar que foi uma das dirigentes escolares mais esclarecida, solidária e interventiva durante todo o processo da luta de professores nos anos quentes de 2007, 2008, e por aí fora. Estive na linha da frente durante todo esse período, e sei do que falo. Esteve sempre do lado certo, contra as políticas da Maria de Lurdes Rodrigues, Valter Lemos e Jorge Pedroso (essa magnífica tríade, junto da qual o atual ministro é um menino de bibe e cueiros). Sei bem que não era fácil nessa altura contrariar o mainstream entre os seus pares e resistir às diretivas ministeriais. Por isso, só posso saudá-la e deixar aqui este testemunho de quem viveu esse período por dentro!

    Mas… há cerca de 10 anos atrás, num encontro organizado por um sindicato de professores com dirigentes escolares, na escola Marquesa de Alorna em Lisboa, em que a Isabel esteve presente, alguém fez uma intervenção (após vários diretores se terem queixado da falta de condições e de todos os constrangimentos impostos pelo ME) perguntando diretamente: “senhores diretores, se a coisa está tão mal, de que é que estão à espera para entregar as chaves das escolas ao Ministério da Educação e, com isso, darem um valente murro na mesa? E perante essa pergunta o silêncio foi ensurdecedor, tendo apenas um dos diretores (dos mais adesivos) respondido que não podia ser porque tinha assumido um compromisso com a comunidade escolar que o elegera. A típica resposta de um cágado!

    Sim, cara Isabel, o Ricardo tem toda a razão no que escreveu acima: os diretores têm uma grande (e já estou a ser simpático) quota parte de responsabilidade perante tudo o que de negativo tem acontecido na Escola Pública, têm sido totalmente coniventes com os sucessivos governos e são apenas uma correia de transmissão das ordens que chegam do ME. E sim, tb é verdade, muitos, a grande maioria, só querem é manter o tacho. Tal e qual como muitos dos dirigentes sindicais que temos. Na verdade estão muito bem uns para os outros!

    • ... on 4 de Outubro de 2020 at 21:10
    • Responder

    Ho,no no,
    Não são muitos, serão pouquíssimos, mas diga nomes?
    E se tivesse razão seria ainda pior … afinal vendem-se ainda por menos (200€) ou será que existirão “extras”…?
    Na minha opinião, invertebrados que são, valeriam ainda menos. Muito menos.
    Alguém lhes chamou kapos, parece-me adequado.

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