Que ensino presencial teremos em setembro? por Filipa Pinto

Que ensino presencial teremos em setembro?

escola pública vive um dos maiores desafios dos últimos anos: dar resposta ao seu propósito supremo – o de garantir a formação integral de crianças e jovens, em circunstâncias o mais possível idênticas – em segurança, num contexto de pandemia por covid-19.

Recentemente, o Ministério da Educação enviou às escolas um documento com orientações para o ano letivo 2020-2021 que provocou algum protesto por parte de diretores, professores e encarregados de educação. Uma das medidas mais polémicas tem que ver com o número de alunos por sala nas turmas do ensino básico e secundário. Uma vez que o Ministério da Educação não prevê a redução do número de alunos por turma, estamos perante a possibilidade de ter até 28 alunos numa sala de aula, com distanciamento, sempre que possível, de pelo menos um metro. Efetivamente, no dia 24 de junho de 2020 a proposta da redução do número de alunos por turma foi rejeitada no Parlamento, deitando por terra as aspirações que há muito professores e investigadores têm acalentado como uma das medidas mais urgentes para melhorar a qualidade do ensino público e mais ainda no presente tempo de pandemia.

Diretores, professores e encarregados de educação não compreendem como é que estas medidas poderão garantir a segurança de docentes, alunos e funcionários. Sabe-se que há vários alunos com doenças crónicas, a classe docente revela-se muito envelhecida e prevê-se que muitos recorrerão a baixa médica para se protegerem nestas circunstâncias. O governo aponta um investimento de 400 milhões de euros em equipamento e modernização digital, o que traduz uma aposta clara no ensino à distância, mas parece menos empenhado em melhorar, de facto, o ensino presencial. Sabendo que o ensino à distância não responde a todo o tipo de alunos, acentua e até cria desigualdades socioeconómicas, promovendo o distanciamento de inúmeros alunos da escola, é crucial que o Ministério da Educação reveja as suas prioridades.

Assim, o que se espera é um investimento objetivo no ensino presencial que passe pela contratação de mais pessoal docente e não docente, desdobramento de turmas, utilização de todos os espaços disponíveis quer nas zonas escolares quer nos municípios, para possibilitar um ensino presencial de qualidade e em segurança. O anúncio de mais 125 milhões de euros por parte do governo para contratações afigura-se como insuficiente, pois será empregue em tutorias e apoio, não estando prevista qualquer verba para a redução do número de alunos por turma.

Sabendo que as escolas e as famílias terão de estar preparadas para um ensino misto (à distância e presencial) devido a um provável segundo surto global no outono ou inverno, as escolas e as famílias contam com o governo para o investimento no que de mais valioso tem a sociedade: o seu capital humano e a educação das novas gerações.

In Público

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5 comentários

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    • Pedro Costa on 19 de Julho de 2020 at 9:09
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    O ME não prevê a diminuição do número de alunos por turma porque isso implicava contratar mais professores e gastar mais dinheiro que faz falta para injetar no Novo Banco e na TAP. É tudo uma questão de prioridades.

  1. Isto é o euromilhões para as escolas…
    Professores e alunos trabalham a partir de casa com equipamentos próprios e internet própria…
    Não há gastos de água/limpeza/funcionários extra/papel higiénico… papel/fotocópias/aquecimento (para quem o tem) … tudo representa eficiência na gestão orçamental…
    Por este processo asseguram o sucesso educativo dos alunos… não fazem/ não apreendem/ mas passam na mesma…
    Não ouvem os professores a reclamar porque falta alguma coisa e até nem se queixam de estar colocados longe a trabalhar e ter de suportar despesas de alojamento e viagens…
    Os alunos não reclamam … levantam-se à hora que querem… fazem o que querem e quando querem … e nem tem de fazer exames obrigatórios para ter a escolaridade obrigatória e entrar para a universidade…
    Resultado este ano não abrem a maior parte dos cursos profissionais porque não há inscrições… a carga horária do ensino regular é menor e os resultados em termos de avaliação/aproveitamento são os mesmos…
    É só facilidades… no futuro vamos ver quem nos vai tratar nos hospitais e quem vai ensinar os nossos filhos com que conhecimentos e com que aprendizagens…
    PANDEMIA é sinónimo de FACILIDADE(agora)/IGNORÂNCIA E INCOMPETÊNCIA (no futuro)

      • Luluzinha! on 19 de Julho de 2020 at 13:44
      • Responder

      Revejo-me totalmente nas suas observações. Muito bem.

    • Matilde on 19 de Julho de 2020 at 12:17
    • Responder

    Subscrevo ,na íntegra, o comentário anterior! E é tudo isto, a par de um amorfismo ou “cegueira”de toda a sociedade e de uma aceitação/acomodação dos ” seres pensantes” deste país, bem como da classe docente(cada vez mais proletarizada, sim!) e seus sindicatos, que me angustia e desalenta, após 30 anos de uma profissão que abracei por vocação!

    • AntonioP on 19 de Julho de 2020 at 12:59
    • Responder

    Desdobrar as turmas, até parece bem! Mas digam-me quantas escolas estão a trabalhar a menos de 2/3 da sua capacidade (para não falar em 50%)! Parece-me que é uma solução irrealizável (já nem falo nos professores a contratar, que duvido que existam em número suficiente). A minha escola – secundária – está perto do limite da capacidade e este ano o número de turma aumentou em 7 (resultado de não haver reprovações no 9º?). Estou curioso para ver como isto irá ser resolvido.
    Solução?
    – diminuição do número de alunos, mas uma diminuição proporcional na carga horária dos alunos (sabemos que muitos conteúdos não interessam)
    – ou, ensino misto (não confundir com ensino à distância), que terá a vantagem de “obrigar” os alunos a trabalho autónomo, necessita de pouca tecnologia (ou nem necessita) e permite ao professor acompanhar os alunos, impedindo a “bandalheira” do ensino à distância.

    Já que falamos nos cursos profissionais, ninguém fala nos focos de contágio que são as salas específicas, com alunos a trocarem de salas específicas, trabalhos em grupo!!

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