O burnout docente contagiou as crianças

A professora de português que deu a primeira aula da telescola deu uma entrevista ao Expresso este fim de semana onde diz que nunca gostou de ler, cito, e está a fazer um esforço para ler um livro no Verão. Como professora e mãe também senti vergonha alheia. Na realidade há muito que acho que a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância. O burnout docente contagiou as crianças, o desinteresse pega-se, contagia. O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.

É de um colégio privado, esta professora, segundo percebi. Podia ser do público, dificilmente seria de um colégio privado de luxo onde não há telemóveis e os professores são intelectuais, bem pagos, em exclusividade. A professora de português que não gosta de ler não é um caso, mas um problema disseminado na educação – a proletarização dos docentes, transformados em mediadores de entrega de conteúdos pré feitos, desprovidos e expropriados do seu ser-pensar-intelectual. No nosso estudo sobre o trabalho docente era visível a desintelectualização da profissão e a falta de consciência desse processo. Quando nós dissemos aos docentes que eles eram intelectuais expropriados uma larga parte ficava impressionado, “então eu devia ser um intelectual”? pensavam com estranheza. Insistimos que para não haver burnout eles tinham que se assumir como sapateiros e não como vendedores de sapatos. Como produtores de conteúdos e não entregadores de conteúdos. E tinham que lutar por isso, não havia e não há outra forma de driblar a depressão, perda de qualidade e sentido do trabalho que não seja lutar contra estas condições de trabalho, por mais ioga e auto ajuda que façam. Em breve (já aliás em curso em Portugal), se nada fizerem, serão apenas monitores de exames também eles de cruzinhas, que o próprio computador se encarregará de corrigir. No Brasil o dito ensino à distância, e isto também no Universitário, já colocou um docente a corrigir 40 mil provas, leram bem, 40 mil. Nem ele é docente, nem a prova é prova, nem a correcção é correcção – é tudo uma enorme farsa que visa a automação, por um lado, e o défice zero por outro, ou seja o pagamento de dívidas privadas transformadas em públicas.

A questão permanece e convoca-nos a todos, o que nós professores, pais, contribuintes, estamos dispostos a fazer para inverter este declínio sistémico, quando cada vez pagamos mais e temos menos. Podemos sempre pensar, como vítimas, que é uma questão privada, daquela professora naquele colégio. Ou agir como questão público que o é, com verdade – é um problema geral que põe em causa todo o futuro do país, do mundo, da humanidade humanizada.

Raquel Varela

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44 comentários

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    • Alexandra Almeida on 19 de Julho de 2020 at 10:22
    • Responder

    Longe vai o tempo em que os alunos tinham de ler todas as obras de Eça, de Júlio Dinis, algumas de Garrett… de Herculano…
    Uma vergonha, essa colega!

    1. Por isso ficaram todos a escrever melhor Português e mais cultos não é?

      Ahh pois é, nem uma simples carta ou um CV ou um formulário sabem preencher, mas fazem de conta que aprendem literatura – sim, porque descartam tudo logo após o teste.

      Com tantas horas de português e matemática por semana era de esperar que soubessem escrever sem erros, saber interpretar um texto e construir frases corretamente, tal como fazer contas básicas do dia a dia.
      Mas não dámos enfase a conteúdos sem utilidade para a maioria, logo nem adquiridos são esses nem os básicos que deveriam.

      Literatura e os clássicos são importantes de conhecer e ler, mas está na hora de repensar nos conteúdos programáticos, pois se não sabem o básico, não vão adquirir gosto pela literatura e pela leitura, apenas aversão a ela.
      O mesmo se passa com a matemática e seus conteúdos.

      Temos de entender que os alunos hoje em dia só dão valor ao que entendem ter utilidade, não pode ser tudo como eles querem mas também não temos de ter programas e ensino de há 30 anos e querer que funcionem e aprendam

        • Francisco Cantanhede on 20 de Julho de 2020 at 9:58
        • Responder

        concordo. Como pode um professor de Português afirmar que não gosta de ler? Como vai esse professor promover o gosto pela leitura? E…um bom leitor é um bom aluno.

          • Roberto Paulo on 20 de Julho de 2020 at 13:16

          Rui, leia, leia muito, para aprender a escrever, pois o seu pseudo-texto é um assassinato à língua portuguesa.

          Sabe como se aprende muito a escrever e a pensar? LENDO! Sabe o quê? Não são CV ou a treta que referiu, mas os tais clássicos, que é para não andar aí a tugolândia a dizer «tamos», «prontos», «tu vistes», «tu fizestesio» e outras imbecilidades do género.

          O caro contradiz-se a eito, provavelmente porque lê pouco e escreve mal. Quantos são os alunos (ou as pessoas em geral) que hoje escrevem cartas? Parece-lhe «normal» que o exigido a um aluno do 12.º ano seja escrever uma carta ou um CV? Sabia que essa tipologia de textos é estudada em Português e nas línguas estrangeiras?

          Se os alunos descartam tudo logo após o teste, então os professores vão ensinar-lhes o quê? Nada, pois descartam tudo após o teste.

          Não sei quem é nem o que faz, mas, pelo que debitou aqui, não passa de um pobre de espírito a produzir dejetos neste espaço. Benzo Deus!

    • Alecrom on 19 de Julho de 2020 at 11:11
    • Responder

    Li duas vezes e… não atinjo.
    Défice intelectual, certamente.
    Ainda assim, pergunto: Raquel, quantos anos de serviço tem no pré, no básico ou no secundário?
    Eu sempre pensei que a docência era uma profissão.

      • Alecrom on 19 de Julho de 2020 at 12:24
      • Responder

      “a maioria das crianças quando entra na escola sofre um processo acelerado de perda da curiosidade, vitalidade, interesse e educação que levavam da infância”.

      Será que lhes começam logo a injectar cidadania e desenvolvimento?

      • Alecrom on 19 de Julho de 2020 at 12:30
      • Responder

      Explicação para o burnout docente:

      “O mesmo retrocesso se dá com os professores, entram na escola muitos a pensar que vão ser educadores, entram rapidamente em burnout quando percebem que vão ser operadores de uma linha de montagem – crianças – para um mercado de trabalho desqualificado.”

      A proletarização da classe, certo?

      Pois eu acho que a colocação de uma alta chaminé que emitisse um sonoro apito de hora de despegar, ajudaria muito desburnoutar a classe.

        • Paulo Pereira on 19 de Julho de 2020 at 21:44
        • Responder

        Lamento que pense assim, de forma tão linear, para não dizer mais…
        E só espero que os argumentos que apresenta não sejam resultado de algum despeito que possa ter por Raquel Varela.
        Eu, pessoalmente, não me identifico com a matriz ideológica da autora, mas sei reconhecer quando o conteúdo é válido e certeiro.

        – o –

        Há algo de muito grave que se está a passar no 1.º Ciclo!

        No Pré-Escolar, constatamos crianças com motivação, liberdade criativa e iniciativa.
        No 2.º e 3.º Ciclos, a maioria dos alunos perdeu muitas dessas valências e atrofiaram a criatividade e o gosto pela busca do conhecimento!

        isto, apesar de parecer uma generalização, é factual!

        E onde se constata mais este atrofiamento é nas Expressões Plásticas, por exemplo.
        Por outro lado, o Ensino Articulado, consegue contornar um pouco este efeito nas crianças.

        Pergunte-se porque será que isto acontece?

    1. Tão atrasado/a é você…

    • Roberto Paulo on 19 de Julho de 2020 at 11:57
    • Responder

    Uma professora do ensino básico que não gosta de ler e não lê?
    Não é necessário vir um não professor para denegrir o professorado.

      • Orquídea neves on 19 de Julho de 2020 at 13:24
      • Responder

      Debato-me todos os dias com este problema: falta de formação a todos os níveis e não são só os professores.

      • maria on 19 de Julho de 2020 at 14:19
      • Responder

      Burnot dos professores devido às inacreditáveis “tarefas” inúteis (inúteis! )) a que estão sujeitos – e não só – como compreendo!

      Agora ,se um professor de Português (ou qualquer outro) não lê ou não gosta de ler? Bem, isso é gravíssimo e remete para a duvidosa preparação que lhes é dada .

      Prova real : leiam as actas e os “relatórios” que parem (de parir).

    • Carapins on 19 de Julho de 2020 at 12:19
    • Responder

    Mas que raio de professora é essa?! Nunca tinha ouvido falar em tal! Um professor de português que não gosta de ler?! Devia ter vergonha de se pronunciar sobre tal e, de colocar em causa todos os outros que gostam de ler, sendo ou não de português, mas, essencialmente, os de português!!!!! Que estudo é este?! Qual a amostra?! Sinceramente, parece que o estudo pretende apenas provar uma única hipótese e, como tal, está logo contaminado, no seu início, porque está feito para um dado fim. Mais uma falta de respeito por todos os professores!

      • Alecrom on 19 de Julho de 2020 at 12:37
      • Responder

      Como nos veem:

      http://www.arlindovsky.net/wp-content/uploads/2018/01/funil.jpg

      Daí a consideração que têm por nós.

      • Paulo Pereira on 19 de Julho de 2020 at 22:00
      • Responder

      Nos espaços que nós chamamos de “Sala dos Professores”, e em reuniões dos mais variados tipos, podemos observar, se tivermos para isso, a muita falta de vergonha que cada vez mais docentes vai assumindo.

      E essa falta de vergonha acaba por ser tão natural que, nos sítios mais insuspeitos, as criaturas descaem-se, assumindo, de forma algo patética, a sua condição de incompetentes.

      Há professores e professores!
      Numa análise ao longo dos Ciclos escolares, é inegável que se encontra muita falta de auto-exigência.
      Mas isto pode ser relativamente compreensível, senão vejamos:

      – A um professor do Pré-Escolar ou do 1.º Ciclo ‘até se pode compreender’ que se diga que o que tal não gosta de ler. Com as devidas ilações que se podem tirar para os docentes desses Ciclos de Ensino.
      – É, todavia, chocante e inacreditável, que um docente de Português do 3.º Ciclo ou Secundário diga, candidamente que “nunca leu um livro” ou que “não gosta de ler”.

      Por estas e por outras é que nunca se conseguiu chegar a um consenso para que se instituísse uma “Ordem dos Professores”, pois isso implicaria colocar no mesmo saco professores de “diferentes campeonatos”.

      Havendo sistematicamente uma negação para este facto, o que se constata é a efectiva proletarização da Classe Docente, segundo um paradigma marxista em que “todos somos camaradas”!

    • Pirilau on 19 de Julho de 2020 at 13:19
    • Responder

    Se me permitem, comecem por ler isto: https://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2018/12/11/burn-out-docente-em-portugal/

    • Luluzinha! on 19 de Julho de 2020 at 13:34
    • Responder

    Infelizmente, o artigo retrata, com fidelidade e realismo, uma situação cada vez perceptível na nossa profissão, o que nos deveria provocar a todos um certo constrangimento e sentimento de vergonha. Mas, a avaliar por muitos comentários e artigos publicados neste blog, não, não provocará com certeza!

      • Alecrom on 19 de Julho de 2020 at 14:10
      • Responder

      Lulu, leste a entrevista?

      A Raquel Varela não leu. Diz ela: “É de um colégio privado, esta professora, segundo percebi”, quando no artigo se refere “Isa Gomes, professora do 1.º ciclo no Colégio Corte Real, na Moita”.

      Lulu, vou deixar duas transcrições da entrevista para poderes/poderem fazer uma ideia mais aferida sobre a nossa colega:

      “Eu não dou aulas, ajudo os miúdos a quererem aprender, a quererem saber mais. É um paradigma de aprendizagem e não de ensino”.

      “[escolheria] O professor António Sampaio da Nóvoa. É inspirador. Gosto da forma como fala sobre a escola, a educação, a aprendizagem. É um poço de conhecimento.”

      Já agora, fiquei com uma ideia simpática da nossa colega e não gostei da caricatura que dela fez a Raquel Varela (pessoa que também gosto de ouvir e ler).

        • Matilde on 19 de Julho de 2020 at 15:30
        • Responder

        A ser como o Alecrom refere, a Raquel Varela não fica muito bem nesta “fotografia”…

        E se foi assim, lamenta-se que se recorra ao enviesamento e à deturpação de determinados conteúdos para fazer vincar um ponto de vista…

      • Luluzinha! on 19 de Julho de 2020 at 14:51
      • Responder

      * (…) cada vez mais perceptível…

      • Paulo Pereira on 19 de Julho de 2020 at 22:20
      • Responder

      Por uma vez, concordo consigo!

      É, de facto, de vergonha, ou da falta dela, do que se trata.
      Mas até para se ter vergonha é preciso ter noção disso.
      Daqui se conclui que o problema maior é a falta de noção daquilo que se diz.
      Particularmente em público.


      Se Raquel Varela está a enviesar o discurso, podemos lamentar.
      Todavia, quem tem alguma percepção do que se passa na sua profissão e do conhecimento e experiência que tem no acto de Ensinar e Motivar para a aprendizagem, o esboço apresentado por Raquel Varela é certeiro.

      Assumir indignação perante alguém que publicamente desconsidera a profissão, com base em preconceitos e despeito, é válido.
      O problema, no entanto, é que à conta de uns e outros professores que se colocam a jeito (porventura com propósitos de deslumbramento pessoal), a Classe fica mal vista perante a opinião pública.

      Quem falou primeiro, foi Raquel Varela? Obviamente que não!
      Quem se expôs foi uma docente que disse publicamente um disparate que só a humilha a ela e dá uma má imagem da Classe docente – mais uma!

    • Gonçalo Cândido on 19 de Julho de 2020 at 13:36
    • Responder

    É com certeza uma confissão corajosa que merece o nosso respeito e reflexão pois o que está em causa é a transformação determinista do espaço da sala de aula como espaço de diálogo e fonte de curiosidade para um espaço de repartição administrativa

      • Pirilau on 19 de Julho de 2020 at 14:02
      • Responder

      Importa-se de traduzir para português?

        • Roberto Paulo on 19 de Julho de 2020 at 14:46
        • Responder

        A sala de aula deixa de o ser para passar a ser a repartição das finanças ou assim.

      • Paulo Pereira on 19 de Julho de 2020 at 22:35
      • Responder

      Discordo, caro Cândido.

      Não é numa sala de aula que se fazem os trabalhos burocráticos.
      Numa sala de aula, que é o lugar, por excelência, onde estão os alunos, exerce-se o Ensino e a Aprendizagem.
      Poderá haver uma excepção para os Directores de Turma, que acabam por “torrar” as suas aulas em processos burocráticos…

      Nem tão-pouco considero merecedor de respeito quem assume, de forma tão leviana, uma incompetência.
      Será que a referida professora assumiu levianamente o ministério da sua profissão?

      Há assuntos, sentimentos e atitudes que devem manter-se confinados à esfera pessoal.
      Ou num consultório de psicologia…
      Mas como vivemos num país onde não há consequências para os mais variados disparates, mesmo ao mais alto nível, acabamos por coabitar, de forma doentia, com gente sem competência, ou que parece não a ter…

      Isto nada tem que ver com Liberdade, mas com Bom-Senso!

    • Matilde on 19 de Julho de 2020 at 16:32
    • Responder

    Assim, de repente (vá-se lá saber porquê 🙂 ), lembrei-me deste deleite de Fernando Pessoa:

    LIBERDADE
    Ai que prazer
    Não cumprir um dever,
    Ter um livro para ler
    E não o fazer!
    Ler é maçada,
    Estudar é nada.
    O sol doira
    Sem literatura.
    O rio corre, bem ou mal,
    Sem edição original.
    E a brisa, essa,
    De tão naturalmente matinal,
    Como tem tempo não tem pressa…Livros são papéis pintados com tinta.
    Estudar é uma coisa em que está indistinta
    A distinção entre nada e coisa nenhuma.
    Quanto é melhor, quanto há bruma,
    Esperar por D. Sebastião,
    Quer venha ou não!
    Grande é a poesia, a bondade e as danças…
    Mas o melhor do mundo são as crianças,
    Flores, música, o luar, e o sol, que peca
    Só quando, em vez de criar, seca.
    O mais do que isto
    É Jesus Cristo,
    Que não sabia nada de finanças
    Nem consta que tivesse biblioteca…

    (Eu gosto muito de ler, tenho até alguns livritos e costumo, amiúde, ler algumas coisas que tanto podem ser sérias, pesadas e indigestas como as mais frugais, despretensiosas e divertidíssimas :). E depois? Isso dá-me o direito de “cruxificar” quem, frontalmente, assume que não gosta de ler? Friso: LIBERDADE, é esse o título do poema do génio Fernando Pessoa…).

    • Matilde on 19 de Julho de 2020 at 18:00
    • Responder

    Apresentei alguns poemas de Fernando Pessoa nas minhas aulas de Filosofia.

    Há uns bons anos atrás ,estando eu a fazer uma substituição numa escola do interior,na primeira aula que tive com os alunos apresentei precisamente este poema .
    Os alunos estupefactos, perguntaram-me: “o que é isto???”.Eu respondi: é um poema de Fernando Pessoa ,conheciam?.Os alunos: “não! mas o que é que isto tem a haver com Filosofia?TEXTOS PARA LER EM FILOSOFIA???Nós não costumamos ler textos nas aulas…..

    Hoje são médicos,engenheiros….etc.

      • Matilde on 19 de Julho de 2020 at 21:07
      • Responder

      Cara homónima, então parece que temos também em comum o gosto por Fernando Pessoa… E ainda bem! 🙂

    • Manuela Rodrigues on 19 de Julho de 2020 at 18:24
    • Responder

    A primeira vez que li a notícia, não quis acreditar. Reli várias vezes, sim! Uma professora que não gosta de ler e que vai fazer o ESFORÇO de ler um livro! E para cúmulo do anedótico, anda a fazer pós-graduação em literatura infantil! Só pode ser fake news! Sinto-me envergonhada por pertencer ao mesmo grupo de recrutamento de tão famosa personagem: sim, sinto vergonha por ter lido quase uma meia dúzia de livros durante esta pandemia, de autores que vão de Vitorino Nemésio, a Valter Hugo Mãe, passando por Alberto Camus, Philip Roths, entre outros; eu que adoro livros desde sempre e tenho conseguido transmitir esse gosto a tantos alunos ao longo de várias décadas de ensino; pois, mas não me chamo «Isa» nem debito MEM de cor…

      • maria on 19 de Julho de 2020 at 19:15
      • Responder

      Não é por ter aversão aos livros, ao conhecimento e ser desprovida do mais elementar bom-senso que deixará de chegar ao topo da carreira , senhores!
      O ECD não distingue o imbecil do letrado. Giro, não? Que acham “da coisa” ?

        • Paulo Pereira on 19 de Julho de 2020 at 22:46
        • Responder

        Disse tudo, Maria!

        Essa “pergunta” devia fazê-la quem, todos os anos, elabora, de forma quase mecânica, os relatórios de auto-avaliação, os quais, convenhamos, são uma farsa, a par das benditas Acções de Formação, que só por um acaso feliz, podem ter utilidade.

        O que mais há são esquemas para subir de escalão!
        Mestrados e doutoramentos da treta, que capitalizam progressão de carreira, mas que, em termos práticos, pouco ou nada contribuem para a melhoria da prática docente ou mesmo a instituição escolar.

        Quais são os Directores que capitalizam para a sua Escola/Agrupamento as mais-valias dos docentes?
        Quais são os Directores que sabem o que é, efectivamente, gestão de Recursos Humanos?

        Conheço um caso de um colega que tirou um mestrado em Mediação de Conflitos. Pergunto: para quê, se as escolas por onde ele passou nunca exploraram as suas valências?

  1. Sem querer armar em psicólogo da treta, duvido muito que seja por causa do “burnout” que uma pessoa deixe de gostar de ler, pois a leitura (não por obrigação) é uma das melhores formas de relaxamento (já para não dizer de evasão).
    Será que a senhora não terá querido dizer que não gosta de ler POR OBRIGAÇÃO?
    É que com o verdadeira “Intifada” que por aí anda contra os professores, não me admirava nada que a afirmação da professora tivesse sido truncada ou descontextualizada.

  2. E já agora, isto não vos faz lembrar “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, que até deu um filme com Julie Christie e Oskar Werner?

    • Matilde on 19 de Julho de 2020 at 22:39
    • Responder

    Subscrevo (há muitos anos) todos os Princípios enunciados e defendidos pelo Movimento Escola Moderna (MEM)… E continuo a acreditar nas vantagens e nas finalidades educativas desse modelo…

    Bem sei que muitos o consideram como uma utopia/quimera, mas isso não lhe retira nem validade nem credibilidade…

    O actual sistema de ensino não passa de uma “máquina infernal, trituradora de pessoas”, e mais não faz do que negar os princípios democráticos, éticos, de participação e de cooperação… A autonomia, a criatividade e o pensamento crítico e reflexivo também estão ausentes… A dificuldade de cada um em pensar por si próprio é cada vez maior e as acções parecem cada vez mais repetitivas e involuntárias…

    Portanto, entre isso e uma utopia, prefiro indubitavelmente a segunda…

    E, não, não sou alucinada, nem lunática, nem extraterrestre, nem acredito no Pai Natal… Tenho os pés bem assentes na terra, mas também sei exactamente aquilo que não quero e por onde não quero ir…

      • Paulo Pereira on 19 de Julho de 2020 at 23:14
      • Responder

      Em teoria concordo consigo, Matilde.

      Porém, esse conceito de Escola que defende só é tendencialmente eficaz nos pequenos centros urbanos, ou escolas do interior.
      Ou, em escolas particulares, nas quais há a liberdade para implementar esse projecto educativo e equilibrar a sua população escolar. Acaba por ser um ecossistema relativamente fechado. E tendencialmente elitista.

      A Escola Pública é, cada vez mais, uma instituição para as massas, e só por felizes acasos é que o processo de Ensino e Aprendizagem se concretiza. A burocratização de todo o processo acaba por consumir o pouco tempo disponível para os profissionais pararem um pouco a fim de observarem, com o saudável distanciamento, aquilo que estão a tentar construir.
      Numa indústria, a normalização e uniformização dos processos é o processo mais eficaz para atingir os objectivos. É a realidade em que nos encontramos, mas que a maioria não nota. E isso leva-nos, fatalmente, para a despersonalização e massificaçao da “produção”. É uma utopia tentar lutar contra esta tendência cada vez mais comum, pois é algo esquizofrénico tentar humanizar um processo cada vez mais burocrático, normativo e contraditório entre o que se exige e o que se pode humanamente fazer.
      Como é possível implementar um processo harmonioso de Ensino e Aprendizagem em Mega-agrupamentos, onde a comunidade educativa é tendencialmente ausente precisamente pela exigência social de se vincularem cada vez mais ao seu trabalho em detrimento da educação dos filhos?

      No caso dos médicos, os sintomas do Burnout evidenciam-se pelo evitamento emocional com o paciente, a perda de empatia e a crescente mecanização das consultas. Perde-se o contacto visual; acentua-se a audição do paciente de forma passiva enquanto se observa o ecran do computador. Os médicos não se queixam, mas os pacientes notam bem esse distanciamento.
      Será que os professores são muito diferentes dos médicos, quando se fala de exaustão psicológica e perda de motivação?

        • Matilde on 20 de Julho de 2020 at 10:07
        • Responder

        Os sintomas e as manifestações do Burnout, ao nível psicológico e físico (sensação de esgotamento físico e emocional, ansiedade, sentimentos negativos face ao trabalho, desmotivação, alterações ao nível do humor e do sono, apatia, pessimismo, enxaquecas, cansaço extremo, tensão arterial alta, distúrbios gastrointestinais, entre outros…), podem afectar muitas classes profissionais, inclusive a classe docente…

        E, nesse sentido, os professores não serão muito diferentes dos médicos ou de outros profissionais, salvaguardando as diferenças em termos de respostas individuais que cada sujeito dá face ao mesmo tipo de problema…

        “É uma utopia tentar lutar contra esta tendência cada vez mais comum, pois é algo esquizofrénico tentar humanizar um processo cada vez mais burocrático, normativo e contraditório entre o que se exige e o que se pode humanamente fazer.”

        Pois é, tem razão. E o problema maior é justamente esse:
        O actual sistema educativo parece já não estar a conseguir cumprir o seu propósito fundamental, comum a todos os sistemas de ensino (de forma simplista, a apropriação de conhecimento/currículos formais) e, pior do que isso, parece estar a destruir, do ponto de vista humano, aqueles que directamente se relacionam com ele: alunos e profissionais de educação… (alunos, sim. Não nos esqueçamos deles…).

        O paradigma tem efectivamente que mudar. Mas mudar mesmo… Retalhos e acrescentos sem qualquer nexo ou fio condutor, como aqueles a que se tem assistido, só contribuem para aumentar a entropia e a pressão do sistema e o mal-estar físico e psicológico naqueles que dele dependem…

      • Roberto Paulo on 20 de Julho de 2020 at 13:28
      • Responder

      Escola Moderna?

      Essa tralha já tem mais de meio século e continuam a chamar-lhe Escola Moderna. Enfim, nem de uma utopia se trata, antes de um monumental embuste. Respeite-se, porém!

        • Francisco Cantanhede on 20 de Julho de 2020 at 13:39
        • Responder

        Completamente de acordo!

    • Marina Cruz on 20 de Julho de 2020 at 11:49
    • Responder

    Há várias situações que são vergonhosas ou, pelo menos, desconfortáveis no ensino. Uns não lêem, outros dizem artesões ou escrevem oscultar (quando queriam escrever auscultar), não sabem o que significa emanados, etc, etc.
    Refiro – me a professores.
    Mas também entristece muito quando vemos estes profissionais muito focados no aumento salarial e progressão de carreira. Nunca, ou quase nunca, questionam ou manifestam inquietação pública sobre programas, conteúdos, métodos e critérios de avaliação, entre outros temas de crucial interesse para alunos e encarregados de educação.

      • Orquídea neves on 20 de Julho de 2020 at 13:11
      • Responder

      Pois é, cara Marina. É também isso que refere. Mas o sistema é tão fechado, a máquina é tão burocrática e pesada que verdadeiramente nem sempre se trabalha para os alunos. Trabalha-se sim, para o sistema que, apesar de ter, até, algumas leis assertivas, nem sempre tem bons executores. São as duas coisas conjugadas. A acrescentar outros fatores como a formação tanto inicial como ao longo da vida, os currículos e os programas, a avaliacao de alunos e docentes, a falta de adaptação a estes novos tempos, tudo junto cria em todos a sensação do salve se quem puder. Daria um bom e prolongado tema de discussão.

  3. A prudência (ou o simples senso comum) diz-me que devia evitar envolver-me neste lamaçal em que já se transformou o “affaire Professora Isa”, mas está-me a fazer confusão toda esta celeuma.
    E – pior ainda – está confirmar a minha crença de que o mundo do ensino é um verdadeiro mundo cão, e que muito bem faço eu em:

    a) fugir da Sala dos Professores como o Diabo foge da cruz (quando possível);
    b) manter-me mudo e quedo, com um olhar vítreo, durante as intermináveis reuniões escolares (seja lá de que natureza forem);
    c) apanhar sempre com um gravíssimo ataque de diarreia nos dias dos almocinhos e jantarinhos entre professores (embora ninguém dê pela minha falta).

    Até dou de barato que responder: “Leituras? Não sou uma leitora. Nunca fui muito de ler livros…”, não é a resposta mais feliz à questão “O que anda a ler?”, mas é necessário montar toda esta espécie “documentário do NG” de hienas a perseguir a presa?
    Até dou de barato que a referida resposta em nada dignifica a profissão docente (ainda que desconfie que, na verdade, o mundo se está a borrifar para as opiniões da professora Isa), mas acham que dignifica a profissão docente aproveitar esta “janelinha de oportunidade” para:

    1º) acirrar “ódios de casta”?
    Exemplo: professores do público contra professores do privado.
    2º) APARENTEMENTE, exibir invejas pessoais e/ou proceder a ajustes de contas?
    Exemplo 1: “Não é por ter aversão aos livros, ao conhecimento e ser desprovida do mais elementar bom-senso que deixará de chegar ao topo da carreira , senhores! O ECD não distingue o imbecil do letrado. Giro, não? Que acham “da coisa”

    Já agora algumas questões: O antónimo de iletrado é imbecil? Ler pouco (ou ler apenas o que nos dá prazer) é sinónimo de ter aversão aos livros? “E…um bom leitor é um bom aluno”, porquê? Qual a base científica para esta afirmação?
    Para essas pessoas que tanto se orgulham da sua “literacia” deixo uma citação de Somerset Maugham:

    “I never cease to wonder at the impertinence of great readers who, because they are such, look down on the illiterate. From the standpoint of what eternity is it better to have read a thousand books than to have ploughed a million furrows?”.

    E se alguém se escandalizar muito com os meus comentários inconvenientes, temos pena. A minha opinião é esta (por muito contracorrente que seja) e quem não gostar que peça ao autor (ou entidade reguladora deste blog ou lá o que for) que os censure.

      • Matilde on 20 de Julho de 2020 at 18:32
      • Responder

      Concordo.

      E gostava, sinceramente, de conhecer as respostas de alguns comentadores às questões (pertinentes) colocadas por si…

      • Paulo Pereira on 21 de Julho de 2020 at 0:32
      • Responder

      Geralmente nunca tenho tempo para fazer uma retrospectiva aos feed-backs dos comentários feitos.
      Confesso que é uma inconsistência, pois acaba-se por escrever “para o boneco” e perde-se o contexto de uma discussão que até poderia ser profícua.
      Este Blog é muito dinâmico, e há opiniões que se vão “perdendo” sem a devida resposta, pois cada dia há novas entradas, cada uma delas passível de outros comentários…
      Mas adiante.

      Relativamente ao comentário do caro colega KT, subscrevo os três parágrafos, pois acaba por ser um pouco assim que me posiciono como docente – é a atitude possível, quando é possível, fora as ocasiões em que temos de assumir uma atitude, quanto mais não seja para não nos tomarem por parte da “manada”… Por vezes contra tudo ou contra todos.

      Quanto às questões que apresentou:
      A dicotomia entre professores do Público e os dos “colégios” está envenenada há décadas, e começou com a propaganda do pós-25A.
      E o veneno tem um substrato ideológico de matriz marxista, promovido sem grande ocultação pelos maiores sindicatos da Educação e alguns agentes políticos mais conotados com as “esquerdas anti-coiso”, pois que se insurgem contra haver Ensino promovido por instituições privadas. O assunto é complexo, mas são raros os que aprofundam o mesmo, concluindo sumariamente o que a propaganda lhes dita: que as escolas privadas são um antro de corruptos, metendo no mesmo saco os gestores, os docentes, os alunos e as famílias.
      Pessoalmente, discordo frontalmente dessa atitude, por vários motivos, de entre eles o facto de reconhecer que as escolas privadas desempenham um Serviço Público (os melhores aferidores são os encarregados de educação), e os Professores, quer do Privado, quer do Público, são uma e a mesma Classe Profissional. Acrescento ainda que, se, no extremo, o Ensino em Portugal fosse todo ele promovido por instituições privadas, numa senda ultra-liberal, muitos docentes seriam liminarmente despedidos. (já trabalhei no sector privado e sei do que falo. Por isso ser pouco tolerante a laxismos e falta de brio profissional entre muitos docentes – precisamente por haver um Patrão ausente e a carreira do professor do Ensino Público ser uma carreira especial unicategorial. Mesmo um Director é e continuará a ser um professor, pois a carreira é Horizontal).

      Quanto à segunda questão, parece estar eivada de preconceito. A realidade, nua e crua, é a de que, no Ensino Público, tão “Bom” é um competente quanto um incompetente. E não há argumentos de peso para contrariar esta tese. Sejamos, por uma vez, honestos!

      Quanto à questão da alegada superioridade moral de um alegado “letrado”, esse é, porventura, o outro extremo a que se chega, quando o ego e o auto-conceito de certos sujeitos tendem a esmagar quem, porventura seja considerado “inferior” ao próprio. Ora isso é uma deformação de carácter!
      Há docentes que, por se considerarem tão “eminentes”, elevam-se para um Olimpo fictício e retiram a escada de acesso para que ninguém – porventura os alegados “inferiores” – os importunem, na sua felicidade individual e ensimesmamento. Pergunto-me se tais excelências alguma vez conseguirão ensinar seja o que for a alguém…

      Sendo que “inferior” não é sinónimo de “iletrado”, não obstante haver uma sintonia implícita na associação, se formos um pouco mais além, e se percebermos os contextos. Não é preciso elaborar muito para perceber isso…

  4. Só uma correção: ” O antónimo de LETRADO é imbecil?”.
    E agradeço as palavras da Matilde.

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