Não me falem já do regresso às aulas, por favor! – Carmo Machado

Não me falem já do regresso às aulas, por favor!

Mal entreguei as provas de exame 639, corrigidas a muito custo, percebi que era chegada a hora de parar. Ou, pelo menos, de tentar. Mas este objetivo saiu gorado pois continuaram a surgir tarefas e mais tarefas, ao ponto de, no momento preciso em que escrevo este texto, o último deste ano letivo (2019-2020), ter percebido que pela minha parte chega. Fechei a loja. Cumpri tudo o que me foi pedido e ultrapassei o número de horas dedicadas à escola desde que as aulas presenciais terminaram. Se fazem favor, esqueçam por uns dias que eu existo: fui professora dos três anos do ensino secundário, diretora de turma de um 12ºano com alguns pais e encarregados de educação com Covid-19 (o que impediu os seus educandos de fazer os exames na 1ª fase), classifiquei os exames nacionais… E, por favor, Senhor Diretor, Senhora Adjunta do Diretor, Senhor Coordenadora dos Diretores de Turma, Senhora Chefe da Secretaria; Senhora Coordenadora de Departamento, Senhora Coordenadora de Grupo disciplinar, Senhoras e Senhores Pais e Encarregados de Educação, alunos, repito, por favor não me enviem mais emails.

Desta pouca capacidade que me resta para pensar, ocorrem-me apenas algumas ideias gerais antes de ir a banhos:

  1. A escola é cada vez menos democrática; perguntam-nos, talvez por descarga de consciência, para opinarmos nos grupos de departamento sobre temas fraturantes mas raramente o que defendemos é ouvido e muito menos seguido.
  2. Houve um pai que proibiu os filhos de frequentar as aulas de Cidadania alegando objeção de consciência em relação ao programa da disciplina; e se um pai vier decidir que não quer que o filho estude Saramago por discordar com as suas ideias demasiado revolucionárias sobre a existência de Deus, impede-o aluno de frequentar as aulas de Português do 12º ano?
  3.  Parece que há uma professora do 1º ciclo que gosta de livros mas não gosta de os ler; ai, se vocês soubessem sobre a quantidade de professores que não podem ler ou que não sabem ler
  4. Sei de casos de professores que praticamente não deram aulas online durante  o periodo de confinamento enquanto outros correram a comprar computadores e microfones e colunas e mesas digitais.
  5. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa considerou que o salário mínimo de 635 euros era razoável no contexto português, pelo que considerará certamente o ordenados dos professores mais do que suficiente para viver decentemente.
  6. Os alunos regressarão às escolas em setembro com máscara e uma distância de 1 metro entre eles, decisão que me parece impossível se mantiverem o tamanho habitual das turmas.
  7. Estão a ser equacionados três cenários para o regresso às aulas; se me perguntassem qual dos três cenários para o novo ano  letivo eu escolheria, a saber: (i) aulas totalmente presenciais; (ii) regime misto com percentagem maioritária de aulas presenciais e uma pequena parcela de aulas síncronas; (iii) aulas totalmente online, optaria sem dificuldade pelo segundo.

Passo a explicar. Um regime misto de aulas para o próximo ano letivo teria a vantagem de evitar que passássemos (professores, alunos  e auxiliares) tantas horas na escola, permitindo uma melhor gestão na transmissão/propagação do vírus; por outro lado, um sistema misto bem organizado e preparado traria a mais valia de integrar de forma eficiente as novas tecnologias de informação e de comunicação no processo de ensino e de aprendizagem (com regras e critérios bem definidos), algo que considero ter sido apenas levemente trabalhado durante o período de confinamento. Mas para já, precisamos todos de férias. Se fazem favor, não me falem já do regresso às aulas que eu preciso de tempo para ler uns bons livros…

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10 comentários

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    • Adolfo on 22 de Julho de 2020 at 13:44
    • Responder

    Ó Carmo MAchado… em que dia começa as tuas férias?
    O que colocaste lá no papelito?

    estes profs… estao mal habituados

      • Férias on 22 de Julho de 2020 at 15:00
      • Responder

      Quem corrige exames, começam já as férias. Interrompem, em agosto, para as reapreciações. E voltam a ter, novamente, férias.

    • Roberto Paulo on 22 de Julho de 2020 at 13:56
    • Responder

    Não é por nada, mas uma professora que escreve «discordar com» causa-me comichão.

    Uma coisa reconheço, ao contrário do Adolfo (já todos percebemos, Adolfo, as simpatias políticas da família!): o trabalho intelectual, que ainda por cima implica contacto diário e contínuo com crianças e jovens, é extremamente desgastante.

  1. Qualquer desabafo é válido, mas o seu valor é diminuto e o seu interesse público ainda menor. Texto que revela pouca pertinência, sagacidade e acuidade, ao qual acresce a pérola “discordar com”. Apenas um desabafo de alguém cansado. Parece reclamar pelo fim do período do trabalho antes do tempo, e, neste caso, tem o dever de se aplicar até ao último dia, ou então, se já está de férias, não se percebe a aparente ansiedade. Dir-lhe-ia (pressupondo a autora de férias) desligue e leia desde já os bons livros.

    • Sandra Rodrigues on 22 de Julho de 2020 at 15:52
    • Responder

    Contrariamente aos doutos colegas, estou com a Carmo Machado: quem levou o E@D a sério, está estoirado!; quanto à professora que «não gosta de ler» (coisa que ela não diz na entrevista!), imagino que muitos opinam, porque replicam o feed do Facebook e NÂO LERAM a entrevista. Ela diz: «-Não sou uma leitora, nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los». De resto, ide ler a entrevista e não atireis pedras, pois muitos de vós tendes telhados de vidro!

      • Roberto Paulo on 22 de Julho de 2020 at 17:49
      • Responder

      Não sou uma leitora, nunca fui muito de ler livros, mas sempre adorei tê-los.

      Desculpe, mas, se pretendia defender a sua colega, só a enterrou ainda mais do que já está. A senhora é professora, não gosta de ler e não lê, mas tem lá os livros na estante para se armar em carapau-fêmea.

      O seu último período ainda é mais perturbador, pois sugere que há muiiiiiiiiiiiiiiiiitos professores que são versões da professora Isa. E isso é trágico e explica a boçalidade de muito professor, que não possui um pingo de cultura ou sequer é capaz de argumentar o que quer que seja.

        • Sandra Rodrigues on 22 de Julho de 2020 at 20:26
        • Responder

        Meu caro,

        leu a entrevista à colega Isa na íntegra, no jornal onde foi publicada? Assistiu às aulas dela em #estudoemcasa?
        Tem dúvidas que há muitos colegas que não pegam numa obra literária (porque é disso que se trata) para ler desde os tempos em que eram obrigados?
        «Tempo para ler/escrever» consta da sua componente não letiva?
        Ainda bem que ambos gostamos de ler…

    • Miguel Ribeiro on 22 de Julho de 2020 at 16:07
    • Responder

    Apesar do cansaço, uma síntese pertinente a focar alguns aspetos que deveriam envergonhar muitas gente: falta de democracia, falta de leitura, falta de brio profissional, falta de decoro, falta de responsabilidade, entre outros.

    1. O Sr. Miguel Ribeiro falará repleto de razão e diria que não posso estar mais de acordo. Contudo, de quem é a responsabilidade da “falta de responsabilidade” ? De quem é a responsabilidade da “falta de democracia”, da “falta de leitura”, etc., etc., e acrescento, do excesso de burocracia, do excesso de grelhas, grelhinhas e afins? Os principais responsáveis não estão sentados na Assembleia da República, estão sentados na sala dos professores.
      É paradoxal e absurda a atitude dos docentes. Se a maioria se lamenta com razão maior parte das vezes, é sem razão que a maioria responsabiliza outros – não docentes – na maior parte das vezes.

      1. Parece que a falta de responsabilidade, que a falta de leitura, que a falta de brio profissional, o excesso de burocracia etc., não é, portanto, da responsabilidade dos professores, será de terceiros, talvez dos políticos. Assim, pela mesma ordem de razões, admito que o professor responsável, com brio profissional, que se interessa, pesquisa, estuda, lê e não inventa documentos redundantes e desnecessários, o professor que é pertinente, inteligente, exigente e crítico, não terá mérito, deve essas características também a uns terceiros.

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