Sobrevivência nas escolas – Valter Hugo Mãe

 

Sobrevivência nas escolas

 

Numa escola, quando me recebiam em grande festa, o alarido escondeu um gesto horrível que só eu vi.

Um professor ainda jovem, tímido e algo frágil, foi surpreendido por um aluno escondido atrás de uma porta que o esmurrou sumariamente. Não é fácil de explicar mas, quando seguia ao meu lado, ouviu o seu nome à passagem, inclinou o rosto para o vão entre a porta e a parede, e só eu, por um ínfimo e inesperado instante, vi o punho voando e ouvi a ameaça clara do miúdo: fodo-lhe o focinho.

A diretora da escola dizia que a mãe de uma menina mandara um bolo. Outra menina pediu para fazermos uma fotografia. Comentavam que sou muito mais gordo na televisão. Diziam que talvez chovesse. O professor agredido apanhou um livro do chão, disse: agora não. Voltou ao meu lado na mesma expressão afundada de há pouco. Queria uma dedicatória. Pediu desculpa por haver sujado a capa. Os livros brancos são como as almas, padecem só de pertencerem a alguém.

Eu não me canso de pedir respeito pela escola e pelos professores. O descalabro do Mundo incide sobre o universo escolar como uma bomba-relógio. Tudo o que falha se dissemina pelas crianças e pelos jovens. Mas julgo que ninguém pode desejar a degeneração do lugar onde os seus filhos se educam, o lugar onde o futuro se educa. A atenção à sanidade escolar precisa de ser prioritária. Não vai haver esperança para gerações mal formadas, admitidas à demasiada ignorância ou egoísmo.

O episódio de um professor mal preparado para lidar com o impertinente da juventude, noticiado há dias, não pode enganar-nos. O digníssimo ofício de ensinar tem perigado por políticas sempre pouco consequentes, mas tem perigado mais ainda pela progressiva aceitação da humilhação dos professores. Os professores fazem a vida inteira o que poucos de nós aguentariam fazer por uma só hora: estão entre quatro paredes com vinte ou trinta crianças ou jovens tentando que aprendam algo enquanto tudo nos seus corpos, nas suas idades, pede movimento, ruído, enquanto trazem de casa a marca das crises familiares, tantas vezes a fome e a violência. Que alguns professores sequer sobrevivam ao díspar dos alunos já é heroicidade de que se podem gabar.

Dediquei o livro assim: peço-lhe que não tenha dúvida, é um dos meus heróis. Não é pelo medo que falhamos. É pela falta de coragem. Como conversámos, não está em causa desistir. Nem dos alunos, nem do futuro. Mas isso implica começar por não desistir dos professores.

 

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5 comentários

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    • Esperança dos Anjos Domingues Pires Feminino on 3 de Novembro de 2019 at 11:32
    • Responder

    Não me surpreende este episódio.
    Lecciono há 22 anos e no dia 30 , 4ª feira aconteceu comigo um caso chocante.
    Um aluno com 7 anos de idade disse-me assim: ” Tira as patas do meu casaco senão levas já uma sapatada”, isto porque eu apanhei o seu casaco do chão e o coloquei na cadeira do aluno. Mas não foi só , já tenho várias participações disciplinares deste mesmo aluno.
    O aluno em questão sabe o que faz e diz e não tem qualquer tipo de défice cognitivo assinalado.
    Penso que é o espelho do que vivência em família.

      • Mary on 4 de Novembro de 2019 at 21:37
      • Responder

      Patas ???? É assim que o “bichinho “deve falar com os seus progenitores . O que é isto ??????

    • Helena Barreira on 3 de Novembro de 2019 at 15:05
    • Responder

    E o que merecia o aluno? O casaco ia para o caixote do lixo ou ser pisado. E depois? É o adulto que não deve fazer isso? Que tristeza. Um a professora com 40 anos de serviço…

      • vitor alves on 4 de Novembro de 2019 at 1:07
      • Responder

      Desculpem discordar um pouco. Sou pai a quinze anos.na minha infância sempre houve um pouco de violência, na minha assim como noutros lares.faziamos as nossas asneiras,mas não sou violento nem malcriado.ja convivi com drogados e não fumo droga.etc…hoje estou casado e dentro da minha casa saem palavrões. Mas ao meu filho nem ao longe nem ao perto lhe premito tal coisa.Tem as brincadeiras dele mas,sabe bem o peso da minha mão desde pequenino. Por isso, isto hoje em dia e um problema social a custa de pais não terem noção nenhuma do que significa educar.Educar não é proteger e defender.E ensinar,repreender,valorizar e conduzir as crianças pelo bom caminho.a sociedade perdeu noção do bom senso.caiu no ridículo. Ensinam a exigir em vez de lhes dizer que tem obrigações. Enfim,podia falar a noite toda……

    • 550 on 4 de Novembro de 2019 at 0:44
    • Responder

    Também há violência de professores sobre “colegas”. Andam uns malucos nas escolas que querem “limpar” a profissão, são uma espécie de polícia do ensino formada por fanáticos, que ainda por cima na sua maioria são uns arrivistas medíocres. Tias de plástico. Conheci uma fanática dessas, uma mafiosa que é capaz de tudo, de quem todos gostam e os que não gostam ainda lhe lambem mais as botas (e isto é que é assustador!)

    Não há democracia em algumas escolas. Há tiranetes à solta em algumas escolas.

    Numa escola do sul de Coimbra uma “senhora chefa intermédia” que manda nos cursos profissionais tem 99% dos professores “presos pelos tomates”. Alterações de atas assinadas por todos sem “piarem” para que possa difamar à vontade e nada ficar registado, reuniões de orgãos com decisões ilegais sobrepondo decisões do CT, difamação constante de “colegas” de quem não gosta e que não lhe baixam as orelhas insultando-os (pelas costas) frente a funcionários EE professores e até alunos, influência na distribuição de serviço de exames a esses mesmos “colegas” arrebanhando a carneirada do secretariado de exames que controla, influência na distribuição de serviço e nos horários dos professores (como faz os horários, para as amigas mafiosas vão os horários bem arranjados, 2ª/6ª livres, manhãs/tardes livres), mobilização e incitação de grupos de EE contra esses “colegas” com o objetivo de os expulsar da profissão (organizando queixas conjuntas dos EE), desautorização e humilhação constante desses “colegas” em frente a alunos invadindo aulas e gozando-os frente aos alunos, arrebanhamento de funcionários e professores contra esses “colegas” em todas as oportunidades, até promoção nos alunos de comportamentos criminosos tais como gravações de aulas desses “colegas” (das quais toma conhecimento e envia para outras mafiosas sem dar conhecimento à diretora).

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