Não somos a Finlândia (nem nunca seremos)

Nunca fui apologista de comparações entre sistemas de ensino, não quer dizer que não possa olhar para o lado e tirar ideias para adaptar à realidade que vivo.

Nunca poderemos “copiar” outros sistemas de ensino, a sociedade tem um papel preponderante na implementação dos mesmos e a nossa é bem diferente da finlandesa. Isso, só por si, torna a “cópia” inexequível.

Não somos a Finlândia

 

“Não acreditamos que uma criança aprende melhor por estar apenas a ouvir, sentada numa mesa e dentro de quatro paredes”. A frase é de Anneli Rautiainen, responsável pela Unidade de Inovação da Agência Nacional para a Educação da Finlândia.

Na liderança de sucessivos relatórios internacionais que avaliam a literacia dos alunos, a Finlândia rompe, desde os anos 70, com alguns conceitos convencionais.

Não se trata apenas de não haver chumbos. Não há exames nacionais ou testes com notas numéricas. O período escolar não pode ultrapassar as cinco horas no equivalente aos nossos 1.º e 2.º ciclos e as sete nos restantes níveis. Há uma grande participação dos alunos na definição dos currículos e das suas próprias metas, sem valorização de disciplinas ditas nucleares em detrimento de outras. Todos os materiais escolares e almoço são gratuitos.

Invocada sempre que se pretende falar do sucesso em educação, a Finlândia volta a ser apontada na discussão em curso sobre acabar ou não com as retenções. Acontece que não se pode importar apenas o que convém deste modelo. Para apostar num ensino fortemente personalizado, as escolas finlandesas têm frequentemente vários adultos em simultâneo na sala de aulas. E têm, ainda antes de isso, uma carreira atrativa e uma seleção apertada, sendo difícil entrar nos cursos de Pedagogia – apenas 9% dos candidatos que fizeram o exame de ingresso conseguiram uma vaga, em 2014.

Um sistema de ensino sem chumbos faz todo o sentido quando se investe no aluno. Não é facilitista, pelo contrário: implica ter profissionais para o acompanharem, projetos que o recuperam, criatividade para soluções que não desistem de quem falha ou se desinteressa. Um modelo assim exige investimento – sobretudo em recursos humanos altamente especializados. Quando se fala em poupanças e custos de chumbar alunos, a discussão é pervertida. O facilitismo está em olhar para a árvore sem analisar toda a floresta.

 

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4 comentários

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    • Orquídea neves on 9 de Novembro de 2019 at 13:57
    • Responder

    É o mesmo que construir uma casa começando pelo telhado. E as bases?? E o essencial? E a maturidade? E as famílias? Que sociedade estamos a construir? Que partidos políticos nos irão representar?
    Vivemos o laissez Faire, laissez passe em todos os âmbitos da sociedade. Solidariedade? Humanismo? Sim! Mas em que medida e com que assertividade. Vive-se o poder a todo o custo. O que interessa é ser diferente, dar nas vistas, parecer. E o que fica? Que mentalidades criamos? Precisamos de debater estas questões.

    • Porfírio on 9 de Novembro de 2019 at 19:27
    • Responder

    Na Finlândia o período escolar não pode ultrapassar as cinco horas nos 1º e 2º ciclos e as sete nos restantes”.

    Em Portugal, de acordo com o DL 55/2018 de 6 de julho, a carga horária semanal é:
    1º ciclo – 25 horas : 5 dias = 5h/dia
    2º ciclo – 1350 minutos : 60 = 22,5 horas : 5 dias = 4,5h/dia
    3º ciclo – 1500 minutos : 60 = 25 horas : 5 dias = 5h/dia.

    Em termos de número de horas não há “grandes diferenças”.

    • Agnelo Figueiredo on 10 de Novembro de 2019 at 1:55
    • Responder

    A Finlândia já não é o que foi.
    https://gregashman.wordpress.com/2017/01/02/three-myths-about-pisa/

    • Marta on 10 de Novembro de 2019 at 17:40
    • Responder

    Eu concordo que os alunos passem todos, mas devem passar com as negativas que têm e não fazer malabarismos para passarem sem ter negativas. Assim, todos passavam, mas ficavam no currículum as notas verdadeiras fruto do trabalho e interesse de cada um. E esta era a verdade dos factos. Depois, cada um seguia o caminho que estas bases lhes permitissem…. Assim, concordo …e tudo era verdadeiro. E depois, como diz o povo” quem tem unhas é que toca guitarra.”

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