“Em Portugal chumba-se muito?” Um mito ou a pura verdade?

O ComRegras já nos vem habituando aos seus estudos e análises. Desta vez fica só a análise do estudo ontem apresentado pela DGEEC.

Eu até posso estar enganado, mas fazendo a média dos 4 ciclos de ensino dá um valor de 89,6% de sucesso… Mais uma vez posso ser eu que estou enganado, mas cometendo o vício de utilizar a escala escolar, 89,6% é praticamente excelente, claro que dizer que 10,4% dos alunos que ficaram retidos é “excelente” possa parecer um bocado exagerado ou politicamente incorreto, os números são os números e parecem-me francamente positivos. Pena não ter os dados da OCDE para fazer a comparação, a seu tempo ficarão disponíveis.

Isto tudo para abordar a questão que muito se tem falado, a transição vs retenção vs facilitismo vs aprendizagem. Talvez seja eu que estou mais uma vez enganado, mas não seria melhor andarmos a debater aquilo que os alunos realmente sabem, as metas de aprendizagem, seus currículos, metodologias de ensino e cargas letivas excessivas, em vez do carimbo passou/chumbou? É que por aquilo que estou a ver, o grande problema não está na reprovação excessiva…

Caiu um mito?

Taxa-de-tansição_conclusão

 

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2 comentários

    • Virgulino Lampião Cangaceiro on 31 de Julho de 2016 at 14:39
    • Responder

    Num país atrasado, com uma dívida descomunal, com uma taxa de analfabetismo muito acima da média europeia, cerca de 90% de “sucesso” é coisa para foguetório! Porém, como sempre quisemos ser mais papistas do que o papa, há que lançar mão do nacional chico-espertismo e “bora lá” alindar as estatísticas…
    Afinal, obter 0% de chumbos é uma meta perfeitamente exequível…basta que se decrete!
    Aliás, nem é preciso decretar…limpam-se uns milhares de chumbos via ensino profissional, vocacional e quejandos. Mas, como tal não basta, pressiona-se os professores para não chumbarem ninguém…
    Como é que se pressiona? Ora! Para além da burocracia que chumbar um aluno implica, há sempre as ameaças veladas e coisas do género: “Ai chumbas? Então toma lá este lindo horário de trabalho…”
    Ah! já me tinha esquecido de uns bananas que dizem ficar muito caro aos contribuintes chumbar um aluno…É claro que fica muito mais barato passar diplomas a atestar uma ignorância atroz, como se de sabedoria se tratasse…

    • Hélia Grilo on 2 de Agosto de 2016 at 0:07
    • Responder

    “Escolas devem decidir não reprovar alunos com muitas negativas”

    Ideia defendida pelo Ministério da Educação.

    Este foi o título do CM 28.06.2016 21:23

    Tem sido assim desde 1992. As pressões têm sido várias para que as escolas transitem alunos mesmo que não adquiram os conhecimentos requeridos pelo Ministério da Educação. Agora é a autonomia das escolas e a avaliação extrema que garantem essa pressão. Tem sido assim que se tem construído a subida, nem sempre consistente, do sucesso educativo em Portugal. O que me deixa atónita é a falta de preocupação assim revelada sobre o futuro das vidas dos alunos que nestes 24 anos têm sido “formados” com facilitismo dentro das escolas, e à saída vão encontrar uma sociedade competitiva, exigente e seletiva.

    “A decisão sobre a retenção de um aluno é precedida de um trabalho apurado por parte dos professores, dos conselhos de turma e dos conselhos pedagógicos, com o objetivo de identificar estratégias e atividades que permitam melhorar as aprendizagens. É por isso que a retenção, à semelhança dos normativos anteriores, é entendida como uma medida de exceção, cuja aplicação só pode ser tomada após um acompanhamento pedagógico do aluno, em que foram traçadas e aplicadas medidas de apoio face às dificuldades detetadas”, defende-se [o ministro da educação na mesma notícia]

    “Trabalho apurado” e aturado dos professores cada vez é mais, fazem-se muitos planos de recuperação individual , criam-se apoios pedagógicos acrescidos, analisam-se as percentagens dos números do sucesso e do insucesso por disciplina, alteram-se as estratégias durante o período escolar ou para o período seguinte, contactam-se com os encarregados de educação para os envolver no processo educativo, na assiduidade e no controlo do estudo em casa. Enfim um ror de medidas, de reuniões, de papeis, de reorientações nas práticas dos conselhos de turma. (Não falamos aqui dos casos dos alunos de Necessidades Educativas Especiais, como se compreenderá).

    Não tenhamos ilusões. Os alunos portugueses podem ter insucesso mas são inteligentes e sabem (sem saber os motivos, apesar de já argumentarem muito com o “antipedagógico”. Mesmo os alunos do 2º ciclo) até onde podem ir e até onde a escola só pode ir.

    Mas nós sabemos que uma escola com insucesso não tem boa avaliação na Avaliação Externa. E está decretado e é público que há indicações expressas e reafirmadas relativamente à excecionalidade da retenção.

    O facilitismo é incontornável.

    Não esqueçamos também como este facilitismo catalisa a indisciplina dentro das aulas. Muitas vezes os alunos que têm explicações fora das escolas já não estão atentos às aulas dos professores nas aulas. Que recado mais incentivador ao desleixo e ao desinteresse que este, subentendido pelos alunos:

    ” Não preciso trabalhar, não preciso estar atento, não preciso estudar porque no final do ano passo.”

    Imagine-se quando nem isso é necessário para atingir os objetivos.

    Muitos académicos, pensadores, investigadores têm diferentes interpretações sobre os problemas do sistema educativo. Uns dizem que o modelo escolar está esgotado, que não está adaptado aos nossos dias, que é falta de formação dos professores (neste contexto não creio que haja formação de professores que valha. Os professores têm formação contínua anual há décadas – outra história para contar)., etc.

    Os tempos mudam e a sociedade e as suas estruturas consequentemente terão que mudar mas também é necessário tempo para a mudança. Temos que pensar no durante a mudança, especialmente quando ainda ninguém faz a mínima ideia para onde ir.

    Se nesse durante se transmitir como valor escolar a recompensa pela falta de esforço e pela falta de regras e atenção às aulas não construímos o futuro de ninguém.

    Na mesma notícia do Correio da manhã:

    O presidente do CNE, David Justino, referiu a necessidade de inverter “a cultura da retenção” instalada nas escolas e aceite como natural pela sociedade, mas frisou que isso não era sinónimo de uma defesa de “facilitismos ou passagens administrativas”.

    Não fiz nenhum estudo sobre estes assuntos depois de 2001 mas, para além de algum saber académico, dê-se algum crédito ao meu testemunho e saber empírico de 30 anos no ensino básico, com 10 e 11 turmas por ano (a 30 alunos por turma).

    Se a retenção é a solução? Não. Mas não esqueçamos que destruímos o ensino profissional para agora constatarmos que precisávamos dele (outra longa história para contar e refletir).

    A conclusão mais objetiva de tudo isto não pode ser outra: Foi decretado, mais uma vez para as escolas que mesmo alunos com muitas disciplinas onde não foram adquiridos os conhecimentos mínimos, devem ser transitados.

    A minha tónica/preocupação e deontologia profissional continuam a ser a mesma desde 1992: Não se deixe as crianças e os jovens sair da escola despreparados para o seu futuro.

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