As 40 sombras da minha docência

Aprecio tanto, mas tanto, o profissionalismo do meu senhor diretor que, aqui o confesso, a sua bastança é de se lhe tirar o chapéu.

Não fosse dar-se o caso de ter sempre a porta fechada, estou certa que o nosso salutar e permanente convívio levaria a que lhe pudesse aqui registar os mais excelsos elogios pelas decisões que toma e que sempre chegam ao nosso conhecimento por via terceira.

No período passado, por exemplo, foi a coordenadora de grupo tocar o sinete aos malandros dos colegas que chegam atrasados às salas, porque o excelso senhor diretor bem vê, pelas câmaras de videovigilância, que anda tudo na fila do penico em vez de seguir apertadinho para a sala de aula.

Agora, com o 7ºG, incumbiu a nossa pobre diretora de turma de duas iluminadas decisões: a primeira é que nos livremos todos de chumbar algum dos acólitos meninos deste ninho de sabedoria escolar; a outra que, esgotadas todas as opções do Conselho de Turma incompetente, iríamos reunir em breve com os senhores encarregados de educação para os sensibilizar para um acompanhamento mais próximo.

Sempre tem ideias brilhantes, o nosso excelso senhor diretor (ergo o chapéu e faço prolongada vénia), que, certamente poderá usar como exemplo da sua magnificente gestão, da próxima vez que Ministro ou Ministra por aí entrar ao beija-mão!

De qualquer modo, revela já uma promissora carreira de abrilhanta-botas, posto que apenas sai do seu gabinetezito, para fazer visitas guiadas à escola ao excelentíssimo senhor presidente de câmara e assessores, visitas essas que ocorrem ao fim-de-semana e finalizam em opíparos almoços ou jantaradas no refeitório educativo. Excelente relações públicas, o nosso excelso senhor diretor, há que se lhe tirar o chapéu, sim senhora.

A relação entre a escola e a câmara é, por esta altura, tão maravilhosamente próxima, que ficou decidido que, no próximo ano, será um dos critérios de seleção dos professores, uma formaçãozita que a câmara oferecerá aos mesmos, pela módica quantia de 100 euro.

“Uma pechincha”, conclui o excelso senhor diretor, “para os benefícios que representará para a comunidade escolar”. Portanto, aqui andamos todos, os contratados, a aprender a mediar conflitos para assegurarmos a reconduçãozita ou a benesse de voltarmos a ocupar lugar nesta adorável escola.

Infelizmente, porém, existem ocasiões em que as coisas não lhe correm tão bem, ao nosso excelso senhor diretor. Há duas semanas, por exemplo, uma funcionária levou umas “biqueiradas” de um aluno e deve ter sido bem difícil de a calar para a coisa não extravazar para a comunicação social. Desconfio que a nossa auxiliar educativa vai ter direito a sentar-se à mesa do notável presidente da câmara e assessores, da próxima vez que estes vierem almoçar à escola.

Na semana passada, novo incidente, desta vez mais gravoso. A Jéssica é uma aluna esquizofrénica que, com quinze anos, decide nem sempre tomar a medicação, decisão que a mãe respeita escrupulosamente. Apesar de ter cara de anjo e olhar casto, existem, de facto, momentos em que a jovem se transfigura e exorciza para cima dos outros os seus demónios. Por norma, é extremamente calma, mas, uma vez por outra, lá decide atirar uma ou outra cadeirita a algum professor que a enerve. É comum ouvir-se um estrondo, meia sala debandar, a professora ou o professor proclamar que se safou a tempo, enfim, uma animação pegada, esta escolinha!

Terça-feira, porém, à prof de História já entradota e sem paciência para aturar crises alheias, deu-lhe um fanico a valer, “ai que sofro do coração” e toca a chamar o excelso senhor diretor para acudir e tirar a bezerra furibunda da sala de aula, porque, às 10h30 da manhã já estava transformada em besta, berrando e ameaçando os colegas em volta.

Contrariado, o senhor diretor, veio entrando na sala quase deserta, com as falinhas mansas do costume. Entre dentes chamou incompetente à colega que se encolhera a um canto e aproximou-se com uma voz canora e adocicada da sorridente jovem.

Convenhamos que se há, nesta vida, momentos de verdadeira justiça poética, este se1rá, sem dúvida, um deles.

Dobra-se o excelso senhor diretor até ficar ao alcance da visão da aluna que se sentara no chão da sala e se recusava a levantar e, após desistir das solicitações meigas, optou por, homem másculo e bem-apessoado que se autorreconhece, exercer a sua força agarrando o braço da aluna para a erguer.

A miúda não foi de modas e pregou-lhe uma valente trinca na mão. Daí em diante, foi Escola Segura e desapareceu da nossa vista o excelso senhor diretor, que deve ter acompanhado o resto da emissão pelas câmaras de videovigilância que tanto gosta de usar.

Quem sabe, diz que as marcas na mãozinha do excelso senhor diretor eram impecáveis e descortinavam uma saudável dentição juvenil. No meu íntimo, só me ocorre desejar que se lhe não caiam os dentes à dita menina, posto que, graças a eles, a Jéssica, foi, em apenas dois dias, integrada numa instituição especial para o seu caso. Depois de todas as tentativas que, durante meses, a pobre DT procurara, depois de todas as cadeiras e apagadores que perderam a vida naquela sala de aula, o nosso excelso senhor diretor tomou, finalmente, a decisão devida. É, sem dúvida, de se lhe tirar o chapéu!

Questiono-me, porém, se  seria necessário ir tão longe caso, o nosso excelso senhor diretor, tivesse frequentado a ação que nos sugeriu sobre “Mediação de conflitos em contexto escolar”.

Na verdade, vistas bem as coisas, desconfio que, nem assim, o final seria diferente…

 

 

PS – As sombras que aqui se apresentam são mera ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência…

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12 comentários

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    • ludvig on 20 de Abril de 2015 at 15:29
    • Responder

    Muito bom! Colega, há por aí mais desses excelsos senhores diretores, infelizmente.

    • jose silva on 20 de Abril de 2015 at 15:46
    • Responder

    Grande testemunho!
    Espero que outros diretores, que nós muito bem conhecemos, leiam com muito atenção este episódio e dele retirem as devidas elações.

      • maria on 20 de Abril de 2015 at 19:11
      • Responder

      Com o devido respeito, elação é sinónimo de magnitude, grandeza e exaltação, bem como de altivez e orgulho. Esta palavra é mais utilizada na linguagem poética. Conclusões são ilações (sem ofensa).

    • Rainha on 20 de Abril de 2015 at 15:53
    • Responder

    Infelizmente não é caso único!!! A ironia descreve bem a situação.

    • Sento-me on 20 de Abril de 2015 at 15:53
    • Responder

    Isto deve ser para os lados de V. Conde. Concelho

  1. Há coisas que não se explicam, sentem-se. O que sinto ao ler estas coisas, que sei serem verdades, dá-me uma revolta, uma vergonha, uma fúria, um escárnio, etc, muito grandes. Que país nojento e maléfico onde a política corrupta está a espalhar-se por todos. Pena que a dentada da aluna tenha sido só na mão do tão excelso, digníssimo e corrupto diretor.

    • Nuno Miranda on 20 de Abril de 2015 at 16:39
    • Responder

    Muito Bom!!!

    • Acrux on 20 de Abril de 2015 at 17:09
    • Responder

    Também é de tirar a cartola à conveniente legislação que
    atribui o laurel a tão veneráveis personagens.

    • Nuno Costa on 20 de Abril de 2015 at 19:27
    • Responder

    Um testemunho similar: Uma vez dei aulas numa escola. Ainda era eu um jovem professor de EVT e essa moribunda disciplina lecionava-se a pares. A escola era “maravilhosa”, situada num subúrbio de luxo. Numa das turmas, um delinquen…ops, um aluno mandou o meu par para o caral**. Nada aconteceu, o menino dava problemas com fartura e nada havia a fazer. Passado uns tempos, mais do mesmo. O meu colega caiu no goto do jovem e vai novamente para o caral**. Mais uma vez nada aconteceu. Passado uns tempos estranhei não ver o jovem na escola. Soube que chamado ao executivo, mandou a senhora diretora para o caral**. Havia sido suspenso na hora.

    • maria on 20 de Abril de 2015 at 19:45
    • Responder

    Esse excelso diretor precisa de ser saneado o mais rápido possível. Deve ser complicado dar aulas nessa escola…

    • Maria Ferreira on 20 de Abril de 2015 at 21:26
    • Responder

    Eh! E eu a pensar que só na minha escola é que se passavam coisas bizarras.

    • Regina Maria Coelho on 21 de Abril de 2015 at 19:45
    • Responder

    A maioria das escolas portuguesas encontram-se no limite máximo de degradação. Há vários fatores que têm contribuído para esta situação lamentável, mas, quero salientar o facto, da POLÍTICA ter tido até ao momento um papel castigador nas nossas escolas! A partir do momento que deram poder aos diretores, deixou de existir respeito por parte dos alunos em relação aos professores e funcionários porque acham os nossos diretores, que em primeiro lugar estão os alunos (mas não todos!!). Os cargos e empregos são normalmente atribuídos a pessoas que futuramente, não possam fazer-lhes sombra, nunca interessando a competência; aos familiares e amigalhaços e àqueles que se põem de cócoras para os ajudar a subir. Uma VERGONHA!

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