Contrataçã​o de professore​s por oferta de escola

Carta de Bruno Reis ao Ministro da Educação e Cultura

Exmo. Sr. Ministro da Educação e Cultura

Eu, Bruno Reis, professor do ensino básico, com dez anos de carreira no ensino venho por este meio chamar a sua atenção para uma situação muito grave que tenho vindo a testemunhar na contratação de professores através das ofertas de escola.

É contra a sua própria vontade, publicamente divulgada, de implementar no sistema de ensino português os valores do rigor do mérito e da excelência, que muitos directores de escolas têm vindo a fazer exactamente o contrário na contratação de docentes. Abusando da liberdade e da responsabilidade que lhe foi confiada na contratação directa de professores através das ofertas de escola, estes directores têm vindo a preterir profissionais muito mais bem graduados e experientes a favor de outros professores com menos habilitações, com menos experiência no sistema de ensino e com menos graduação. Será para bem dos alunos que se escolhe um professor com graduação de 15, com apenas 300 dias de serviço, quando para esse mesmo lugar havia concorrido um outro professor com graduação de 24 e com 3600 dias de serviço? Não me parece que seja. Não vou maçá-lo com a já longa lista de exemplos que concretamente lhe poderia facultar (a menos que assim o deseje e, nesse caso, terei todo o gosto em o fazer).

O problema reside, a meu ver em dois pontos essenciais: em primeiro lugar na falta de ética dos directores de escola que praticam a gestão de uma escola como se de coisa particular se tratasse. Pois a escola pública existe para prestar um serviço aos alunos, à comunidades e ao país, por isso mesmo tem a obrigação de fazer o melhor que for capaz por esses alunos e comunidades com os recursos de que dispõem, sejam materiais ou humanos. Então como se explica que não se usem os melhores recursos humanos que se têm à disposição? Dentro da lógica do serviço público não consigo encontrar justificação.

Poderá perguntar-se como é que eu chego à conclusão que a ética nem sempre faz parte da prática de alguns directores de escola. Para lhe responder a essa dúvida deixo-lhe as seguintes questões e considerações. Será justo que os critérios de selecção e factores de ponderação sejam tão ardilosamente criados por forma a que todos os candidatos que a esse lugar concorram fiquem automaticamente pior classificados do que o candidato que de antemão se pretendia seleccionar? E isto nem é assim tão difícil de fazer, basta que o critério “Ter trabalhado neste agrupamento de escolas” valha 25 em 30 pontos possíveis, (como já tive a oportunidade de ouvir das próprias direcções com que entrei em contacto) para que se preveja quem estará melhor posicionado para ocupar esse lugar. Há ainda casos em que os critério de selecção nem têm sequer um valor de ponderação associado, como pude comprovar pela acta de Conselho Pedagógico onde foram aprovados esses critério (facultada a mim pela direcção da escola em questão após solicitação ao abrigo da Lei n.º 46/2007 de 24 de Agosto), pelo que nem imagino como se procede à ordenação das dezenas ou centenas de candidatos que concorrem a essa escola. Há escolas ainda que nem fazem constar dos seus critérios de selecção nenhum dos seguintes elementos: nota final de curso dos candidatos, a sua graduação profissional ou o seu tempo de serviço. Tantos outros exemplos lhe poderia facultar, alguns ainda mais absurdos.

O segundo ponto essencial deste problema, a meu ver, é a confiança cega que o Ministério tem depositado nas direcções das escolas, porque embora haja direcções que a têm merecido também há outras em que claramente tem havido abuso sistemático dessa confiança. A liberdade dada às direcções para seleccionar os seus professores contratados nem sempre tem sido usada para beneficiar a escola nem os alunos, como penso ter esclarecido no parágrafo anterior.

Ora, combinando estes dois pontos, a demonstrada falta de ética de alguns directores com a liberdade que lhes é dada na selecção de docentes contratados, chega-se a um situação que eu tristemente adjectivo de vergonhosa para o nosso Sistema Educativo. Vê-se premiado o compadrio, vê-se premiada a bajulação, vê-se premiada a relação social entre quem selecciona e quem é seleccionado, vê-se premiada a relação familiar entre os envolvidos e, desta forma, os valores que vossa excelência defende e promove são totalmente arredados deste processo. Como ter então uma Escola de excelência, de mérito e de rigor se aqueles que são responsáveis por implementar esses valores junto dos alunos não se encontram a exercer essa função por via desses mesmos valores?

Deixo-lhe esta questão na esperança que possa encontrar rapidamente uma resposta para este problema.

Atenciosamente,

Bruno Reis

Link permanente para este artigo: http://www.arlindovsky.net/2011/09/contrataca%e2%80%8bo-de-professore%e2%80%8bs-por-oferta-de-escola/

11 comentários

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    • Joana on 29 de Setembro de 2011 at 22:49
    • Responder

    Espectacular!… O colega que escreveu isto está de parabéns! E tirou-me as palavras da boca… É que eu ando nisto já há muito tempo e esta situação vergonhosa das ofertas de escola para amiguinhos já se arrasta desde há muito tempo (antes ainda da chamada “autonomia”). Logo no primeiro ano em que houve ofertas de escola isto aconteceu… Fartei-me de ligar para escolas a denunciar casos de ultrapassagens vergonhosas e de ainda ser maltratada por pessoas que já estão no ensino há muito mais tempo que eu mas que não têm o mínimo de consideração pelos colegas…

    • Ana on 29 de Setembro de 2011 at 23:52
    • Responder

    PARABÈNS!!

    • Pah, on 29 de Setembro de 2011 at 23:56
    • Responder

    Nao é pedindo justificaçoes, é simplesmente, e porque está provado e mais que provado, nao aceitar estas situaçoes. Caso nao apresentassemos soluçao estariamos calados, a soluçao é a justiça contratual, é a lista graduada. Ou nao é por ela que a “Carreira Doente” se reje? Atençao ás implicaçoes futuras…
    Colegas, alunos,pais, politicos, responsaveis da justiça nacional, comunicaçao social, resumindo, país! Tanto temos perdido, Nao percamos a Eucaçao!!!

    • Sónia A. on 30 de Setembro de 2011 at 1:24
    • Responder

    Parabéns Bruno!

    • Miguel on 30 de Setembro de 2011 at 10:08
    • Responder

    Completamente de acordo Bruno este texto demonstra toda a revolta que todos nós sentimos, a pouca vergonha que são 99% das ofertas de escola no nosso país que apenas existem para os afilhados que estão a começar a carreira coitadinhos e nós que andamos a acumular tempo de serviço e a fazer muitos sacrificios e Km´s durante anos somos assim ultrapassados e estamos em casa… Pior do que isto só a injustiça das renovações que ninguém fala…

    • Cris on 30 de Setembro de 2011 at 11:01
    • Responder

    100% de acordo. Aconteceu-me nas ofertas de escola este ano cada absurdo! Parabéns pela clareza de expressão.

    • maria on 30 de Setembro de 2011 at 11:01
    • Responder

    miguel,nas renovaçoes não falam porque ficaram bem e estiveram-se nas tintas para os lesados, os colegas do quadro que têm ordenado garantido,deviam na propria escola denunciar as injustiças,mas,acomodam-se.
    nas ofertas,os adaptados a medida do criterio,estao bem;
    aqueles ,ultrapassados, que aceitaram horas em oe ,para dar comer aos filhos,são hoje camionistas na estrada…perderam direitos,completam horario com recibo verde e continuam lesados e ultrapassados na reconduçao e nos completos das oe.
    a aval.de mbom ou excelente…foi varinha de condão.
    coragem colegas,isto é vergonhoso.

    • ana maria on 30 de Setembro de 2011 at 12:04
    • Responder

    Parabéns Bruno. Espero que obtenhas resposta.

    • Bruno Reis on 30 de Setembro de 2011 at 12:12
    • Responder

    Recebi resposta hoje do Ministério. Aposto que é uma resposta tipo, se calhar até de envio automatizado, mas enfim…

    “Exmo. Sr.,

    Encarrega-me o Sr. Ministro da Educação e Ciência de agradecer o envio do seu e-mail e informar que as situações por si relatadas serão analisadas convenientemente pela Secretaria de Estado competente.

    Atentamente,

    Gabinete do Ministro da Educação e Ciência
    Ministry of Education and Science
    Ava. 5 de Outubro, nº.107-13º
    Tel: 217 811 800”

    • Bruno Reis on 2 de Outubro de 2011 at 22:47
    • Responder

    A todos os colegas que já foram injustiçados nas ofertas de escola por critérios de selecção manhosos e por directores de agrupamento que não sabem o que é ética, a sugestão que vos deixo é participar todas as situações que considerem duvidosas ao ministro da educação, às DRE, aos jornais e às televisões. É o que eu tenho feito. Deixo aqui os emails para vos poupar tempo:

    reportagem@cmjornal.pt jornalismodecidadao@dn.pt cidadaoreporter@expresso.impresa.pt agenda@jn.pt agenda.informacao@rtp.pt atendimento@sic.pt agenda@tvi24.pt gmec@mec.gov.pt dren@dren.min-edu.pt gaae@dren.min-edu.pt atendimento@drec.min-edu.pt.

    Não desistam e passem a palavra. Não podemos deixar que brinquem com a nossa profissão, com a nossa carreira e com a nossa vida.

    • Bruno Reis on 3 de Outubro de 2011 at 19:22
    • Responder

    Caros Amigos,

    Acabei de ler e assinar esta petição online:

    «MANIFESTO CONTRA AS CONTRATAÇÕES DE ESCOLA»

    http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N14808

    Pessoalmente concordo com esta petição e acho que também vais concordar.

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