O drama das “aprendizagens perdidas”…

 

Nós, os Portugueses, adoramos um bom drama, não há como disfarçá-lo…

 Nós, os Portugueses, consideramos, quase sempre, que “quanto mais difícil e tortuoso, melhor”, o que é difícil é que é bom, mesmo que isso signifique perda de tempo e de eficácia…

 Nós, os Portugueses, parece que consideramos que a auto-flagelação é a forma mais adequada de expurgar erros e/ou de “pagar” pelos mesmos…

 Vem o anterior a propósito do que parece ser o mais recente drama da Educação: a recuperação das “aprendizagens perdidas”, por motivo do confinamento decorrente da pandemia…

 Como se tais perdas não fossem mais do que expectáveis no contexto de confinamento e de E@D ou como se tais perdas se constituíssem como um fenómeno verdadeiramente inexplicável, deveras intrigante, o Governo/Ministério da Educação criou uma Equipa de Trabalho que, por certo, reunirá múltiplas vezes ao longo de tempo incerto… No fim desse tempo incerto, apresentará, previsivelmente, as suas brilhantes conclusões que, poderão ou não, fazer sentido… Talvez em Maio se conheçam essas conclusões…

 À boa maneira portuguesa, e quase sempre de eficácia muito duvidosa, muito tempo se despende e muito dinheiro se subtrai ao erário público por conta de Comissões e de Equipas de Trabalho, quase sempre também muito Multidisciplinares…

 Mas no que à Educação respeita, o que poderia fazer sentido, talvez fosse a implementação, em curto espaço de tempo, das medidas mais simples e mais pragmáticas, sem floreados e sem dramas desnecessários, como aliás tem sido defendido aqui por alguns: reduzir o número de alunos por turma; reduzir os conteúdos programáticos das várias disciplinas; e eliminar algumas disciplinas que se apresentem sem grande pertinência, dadas as circunstâncias actuais…

Para tomar medidas dessa natureza não são necessárias Equipas de Trabalho ou Comissões…

 E as circunstâncias actuais, com tendência para piorar nos próximos tempos, alertam-nos para outro aspecto óbvio, mas potencialmente devastador: quando não se tem “pão” tudo o resto fica condicionado…

É assim, sempre foi assim ao longo da História e não há volta a dar quanto a isso…

 Bem podem vir todas as “Escolas de Verão”, todos os Projectos holísticos, todas as Equipas Multidisciplinares e toda uma panóplia de artefactos irrealistas… Se a taxa de desemprego continuar a aumentar, como infelizmente se preconiza, se as moratórias de empréstimos bancários efectivamente cessarem e se o pequeno comércio e a pequena indústria continuarem a sucumbir, que condições socioeconómicas terão muitas famílias para que as suas crianças e jovens possam continuar a ir à escola? E digo ir à escola, já nem refiro ir à escola para aprender

 E talvez não faça mal nenhum lembrar que as escolas costumam ser dos primeiros lugares onde se percepcionam alguns tipos de carências, nomeadamente as socioeconómicas…

 Como previsivelmente acontecerá, atulhar as escolas, os alunos e os profissionais que nelas trabalham com mais projectos e programas irrealistas e artificiais, concebidos à custa de enquadramentos teóricos impossíveis de concretizar em termos práticos e feitos à medida de quem não faz a mínima ideia do que é o dia-a-dia numa escola, não parece ser nem sensato nem consequente… A auto-flagelação, os episódios folclóricos e a demagogia na Educação parecem estar a agigantar-se…

 Neste momento, os alunos e o pessoal docente e não docente estão de facto exaustos, independentemente dos resultados escolares obtidos pelos primeiros no final do 2º Período Lectivo.

 Regressar à escola em termos presenciais requer serenidade e sensatez da parte de todos os envolvidos. Entrar numa espécie de frenesim de Projectos para recuperar o que, na verdade, não é recuperável pode induzir maior entropia no sistema, sobrecarga de estímulos e consequente sobrecarga emocional e pôr também em causa as aprendizagens futuras…

 Manter o mesmo número de alunos por turma, o mesmo número de disciplinas e o respectivo conteúdo programático anteriores à pandemia e ainda acrescentar projectos que, na prática, costumam apenas significar um acréscimo de tarefas para alunos e professores, não parece viável e pode conduzir a resultados ainda piores…

 Recuperação de aprendizagens perdidas durante a pandemia? Pois sim, perderam-se aprendizagens… Como se perderam empregos, como se perderam interacções sociais, como se perderam rotinas anteriores, como se perderam pessoas… Perdeu-se muito, a muitos níveis, e sobre isso não parecem existir dúvidas…

 Quando existe uma catástrofe de proporções mundiais, como uma pandemia, é inevitável perderem-se coisas e perderem-se pessoas… Também não há volta a dar a isso…

 Nos últimos dias, falou-se muito da necessidade de um “Plano Marshall” na Educação, mas convém não esquecer que, no original, esse programa teve como principal desígnio a recuperação económica dos países europeus intervenientes na 2ª Guerra Mundial, tendo como “mecenas” ou patrocinador os Estados Unidos da América…

Por analogia com o que se passou nessa época, será fundamental e urgente recuperar a Economia do país, pois só dessa forma se poderá pensar em recuperar as eventuais “aprendizagens perdidas”, apesar de poder não existir, no caso presente, qualquer “mecenas”…

Face à urgência e premência da primeira, a segunda poderá esperar… Até porque a segunda só terá condições para se cumprir e concretizar se a primeira se encontrar satisfeita…

 Dificilmente se consegue aprender com a “barriga vazia” ou, se se preferir, a satisfação das necessidades mais básicas como as fisiológicas, onde se inclui a fome, está na base da Pirâmide de Maslow…

 O resto é mero folclore ou paisagem… E nem vale a pena sequer falar da possibilidade de podermos vir a ter mais confinamentos… Tudo a seu tempo, uma coisa de cada vez…

 

 

(Matilde)

 

 

 

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12 comentários

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  1. Lucidez, pura e exclusiva lucidez!

  2. Totalmente de acordo, Matilde.

    • Alecrom on 2 de Abril de 2021 at 19:19
    • Responder

    “A auto-flagelação, os episódios folclóricos e a demagogia na Educação parecem estar a agigantar-se”.

    Parecem?

    Óóooo Mátildji,
    tá brincando, né?

    • Catarina on 2 de Abril de 2021 at 19:30
    • Responder

    Países Baixos suspendem uso da vacina da AstraZeneca em menores de 60 anos

    Países Baixos cancelaram cerca de 10.000 vacinações que estavam previstas para a próxima semana a membros dos serviços de saúde holandeses com menos de 60 anos.

    https://www.publico.pt/2021/04/02/mundo/noticia/paises-baixos-suspendem-uso-vacina-astrazeneca-menores-60-anos-1957022

    • Falar verdade on 2 de Abril de 2021 at 19:41
    • Responder

    Somo um país de drama, vivemos a fazer drama de tudo: as crianças estão em casa é um drama, porque vão ficar obesas e com problemas de saúde mental para o resto da vida. (só não é drama quando os pais as deixam passar horas e dias a fio no computador durante as férias de verão, alguns nem conseguem ver o sol ou quando lhes dão um tablet para as mãos para as entreter…!); é um drama para as gerações mais novas de professores dar aula em casa, apesar de alguns deles terem nascido rodeados de tecnologia, não conseguem libertar-se do espaço de sala de aula para terem ideias e a forma como superar obstáculos e ter um ensino de sucesso; …. . Concordo com a Matilde, quando refere que tudo quer sensatez e sobretudo o regresso. Além disso, era bom que reduzissem o n.º de alunos por turma, fizessem horários mistos, e que houvesse alguma serenidade, porque o RT já está nos 0,97 e os números estão a subir e as mortes ainda não deixaram de acontecer.
    O que é que está primeiro? Não deverá ser a saúde?

    • Atento on 2 de Abril de 2021 at 21:54
    • Responder

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    Aquilo a que chamam de “Escola Pública” tem que estar ABERTA ao Público/Utentes.

    Num País MISERÁVEL ….a muito poucos lugares de Ser o País Mais Pobre da Europa.

    Num País MISERÁVEL ….a muito poucos lugares de Ser o País com maior nível de DESIGUALDADE nos rendimentos da Europa.

    Num País MISERÁVEL chamado Portugal é evidente que faz todo o Sentido manter, a qualquer custo, os Centros de Assistência Social de Jovens (também conhecidos por ESCOLAS PUBLICAS) quanto mais não seja para SERVIREM REFEIÇÕES aos Famintos desta Vida. Aliás, mesmo em Confinamento, as ditas erradamente “escolas públicas” nunca deixaram de servir Refeições aos DESGRAÇADOS.

    Em Portugal reina a Indisciplina, a falta de Educação, a falta de Literacia e a falta de Civismo.

    A dita “Escola Pública”, em Portugal, é um EMBUSTE e uma Vergonha (para não dizer um NOJO).

    A dita “Escola Pública”, em Portugal, é um Enorme ARAMAZEM onde se colocam os rebentos para que estes não chateiem os progenitores. É a chamada Escola-Armazem. Não existe qualquer preocupação com o futuro académico dos filhos.

    A dita “Escola Pública”, em Portugal, é uma Enorme CANTINA SOCIAL onde se fornece comida aos famintos desta vida, de que são exemplo os filhos de pais desempregados, de pais com Rendimento Minimo, de pais do Salário Minimo, de traficantes de droga, de prostitutas….É a chamada Escola-Cantina-Social.

    A dita “Escola Pública”, em Portugal, é um Enorme EMBUSTE, onde os “professores” intretem os meninos com umas Trêtas (Cidadanias, Educações Ambientais, desporto escolar – dá uns chutos numa bola -, sexualidade….)…..É a chamada Escola-Intretem.

    Isto a que chamam indevidamente de “ESCOLA” e que devia ter outra designação é apenas uma ALMOFADA SOCIAL (Escola-Armazem; Escola-Cantina-Social; Escola-Intretem….) a funcionar para não ter uma Revolta nas Ruas dos ESPOLIADOS desta vida que num País MISERÁVEL como Portugal continuam a Sobreviver.

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      • Fernando, el peligroso de kas verdades. on 2 de Abril de 2021 at 23:39
      • Responder

      Chegou o Atento, o malcriado!

        • Pintelho on 3 de Abril de 2021 at 15:36
        • Responder

        Peço desculpa á Senhora Dra. Matilde, mas não posso deixar passar as afirmações deste Panasca e Atrasado Mental em branco.

        Este Nandinho Pacóvio afirma que o Atento é malcriado, mas não argumenta nada em favor da sua tese, logo é um SITÔR Mentecapto e Pacóvio daqueles que, oriundos das berças vieram para a cidade, fizeram um curseco e são Sitôres da Trêta na dita “Escola Pública”.

        Eu acho que este Nandinho, el peligroso de kas verdades quer é peso e, eu como Fodilhão de Serviço, tenho que lhe dar aquilo que ele pede. Neste caso não é o “Pincel do João”….é o Pincel do Pintelho…..

        Nandinho (digo, Fernando, el peligroso de kas verdades) meu quiduchuu, arreia lá as calças e pega no tubo de Baselina para eu te colocar o BACAMARTE no Olho do Cú. Quero esse pacote bem lubrificado!…..

        Já te falei várias vezes para manteres esse cusinhu gostoso bem tratado. Eu gosto disso bem oleado.

        Espero que já tenhas feito o Teste do Covi (não!…não deves meter a Zaragatoa no pacote!… eu sei que gostas, mas não deves fazer isso) e que tenha dado negativo. Sabes que eu sou um Cobridor, mas não quero ser infecionado.

        Já arreiaste as calças?…ou usas saias?….

      • MaisumCosta on 3 de Abril de 2021 at 2:25
      • Responder

      Atento, seja público ou privado, vai a um psicólogo, a sério.

      • maria on 3 de Abril de 2021 at 12:15
      • Responder

      Peculiar discurso à parte , Atento não deixa de ter alguma razão.

    • Terra das Lágrimas on 2 de Abril de 2021 at 22:36
    • Responder

    Boa noite, Dra Matilde!

    Até concordo mas…

    “e eliminar algumas disciplinas que se apresentem sem grande pertinência, dadas as circunstâncias actuais…”

    Eventualmente serão todas menos Português, Matemática e Ciências Naturais!!!….Isto dadas as circunstâncias atuais mas há muito desejado por alguns docentes!!!

    A sociedade tende em não perceber a batalha de tempos entre os titulares da disciplinas!

    • Tiago on 3 de Abril de 2021 at 10:32
    • Responder

    Os programas devem conter o essencial ao nível do conhecimento.
    No programa de História penso que poderá ser em “espiral”, ou seja, há uma revisitação dos temas desde o 2º ciclo ao Secundário. Há a possibilidade dessa ordem cronológica ser estanque e um tema lecionado num ciclo não será revisitado sendo a ordem cronológica contínua do 5º au 12º ano.
    As aprendizagens, quer no E@D, quer no presencial têm de ser testadas / avaliadas, através da diversidade de instrumentos de avaliação, nomeadamente o teste global que, não tendo um peso absoluto, deve ser o mais considerado por consignar a possibilidade de avaliação num só instrumento várias capacidades e conhecimentos.
    O apoio aos alunos deve ser individualizado ou em pequenos grupos. No E@D tenho tido essa possibilidade que não tenho no presencial por os alunos responsáveis solicitarem apoio de forma síncrona nas aulas assíncronas, o que não seria possível no modelo presencial. Muitos com dificuldades não aparecem por não quererem e não por outros problemas.
    Penso que é obrigação da escola dar oportunidade de aprendizagem diversificada para abranger as expetativas do maior número de alunos, estando atenta à realidade social mas sem perder o foco principal: FORNECER AOS ALUNOS CONHECIMENTO E CAPACIDADES (ESTÃO INTERLIGADOS)

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