O preço da incompetência- Alexandre Homem Cristo

Houve um tempo nesta pandemia em que a desorientação do Governo o encaminhou para medidas vistosas, mas discutivelmente ineficazes, com o propósito de mostrar serviço. Agora, a orientação ascendeu a um novo patamar: o da introdução de medidas inequivocamente sem eficácia, cujo propósito já apenas consiste no encobrimento da incompetência acumulada. A proibição de ensino à distância nos próximos dias 30 de Novembro e 7 de Dezembro é disso um exemplo gritante: o Governo impede as escolas privadas de darem aulas online nesses dias, não por motivos sanitários (os alunos estariam em casa), mas (presume-se) porque não poderia garantir igual continuidade educativa nas escolas públicas. Será esta uma defesa da igualdade? Não, é um nivelamento por baixo e uma manobra política: se os miúdos matriculados no privado tivessem aulas, o país perguntar-se-ia o porquê de o mesmo não acontecer no público — uma pergunta incómoda a evitar, uma vez que a resposta é simples: porque o Governo falhou. Ou seja, esta proibição prejudica os alunos, mas beneficia o Governo. Fica claro o que, na balança, pesou mais.
Recapitulemos. Nas próximas duas segundas-feiras não haverá actividades escolares presenciais. A decisão surge no seguimento da renovação do estado de emergência e das medidas para os fins-de-semana e feriados de Dezembro, com vista a impedir a circulação de pessoas nos dias de ponte. Percebe-se o objectivo de confinar nessas segundas-feiras, mesmo que seja fácil discordar da necessidade de fechar escolas ou desconfiar da eficácia da medida — de resto, o próprio Governo tinha adoptado a boa prática de evitar a todo o custo o encerramento escolar, precisamente por saber que a medida não justifica o dano causado aos alunos. Mas o problema maior revelou-se na tarde desta terça-feira: quando as escolas privadas anunciaram planos para manter actividades à distância nesses dois dias, o Governo apressou-se a agitar o texto do decreto e alertar para a proibição.

Link permanente para este artigo: http://www.arlindovsky.net/2020/11/o-preco-da-incompetencia-alexandre-homem-cristo/

4 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • maria on 26 de Novembro de 2020 at 10:05
    • Responder

    Bem observado.
    Coercivamente, o governo estabelece o princípio ” ou há moralidade ou comem todos” mesmo arrogando-se no direito de mandar na casa dos outros.

    Tenho uma dúvida, e peço ajuda : se – por hipótese – o colégio decidisse facultar aulas à distância ao Domingo, e tanto pais como alunos aceitassem , ficariam impedidos de o fazer ? Quem me responde ?

    • maria on 26 de Novembro de 2020 at 10:51
    • Responder

    Outra dúvida, e não é pequena: se um dedicado prof. do ensino público quisesse comunicar ao Domingo – via internet – com os seus alunos, ensinando-os , e estes aceitassem de bom grado o obséquio , teria de pedir “autorização” às excelências pardas ? Estava a promover a desigualdade relativamente aos outros milhares , né ?

    Não se riam . Alguém acaba de me segredar que há quem o faça e, portantossss , esses professores estão a incorrer numa ilegalidade. Meu Deus …

      • Rui Filipe on 28 de Novembro de 2020 at 22:28
      • Responder

      Se a legislação ainda estiver em vigor, não pode. Pode-se receber uma punição ,chamada excesso de zelo.

    • Lucas on 26 de Novembro de 2020 at 15:47
    • Responder

    Até se pode pensar que os colégios privados pensam nos alunos, mas não.
    Só lhes interessa que os pais não paguem os dois dias de férias forçadas.

    Aí as mensalidades a baixar … Aí ai

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Seguir

Recebe os novos artigos no teu email

Junta-te a outros seguidores: