19 de Maio de 2019 archive

Bate, que é professor!

Este artigo já é de 2007, mas demonstra bem a atualidade. As agressões a professores têm acontecido em crescendo e cada vez mais têm vindo a colorir as páginas dos jornais. O problema vai acontecer quando os jornais julgarem o ato corriqueiro e normal e deixarem de lhe dar algum (pouco) destaque.

 

Bate, que é professor!

Já que os sindicatos o não fazem, não haverá ninguém que defenda os professores?

Quando um tema chega aos humoristas é, geralmente, porque não tem piada nenhuma. É o caso da violência de que têm sido vítimas alguns professores portugueses, que foi glosada por Ricardo Araújo Pereira numa crónica na Visão com o título “Escolas S+M” (Escolas Sade e Masoch). E os “gatos fedorentos” já propuseram sarcasticamente que se contratassem ciganos para professores. O mesmo tema foi tratado mais a sério pelo escritor Manuel António Pina na sua coluna do Jornal de Notícias, cujo título também chamava a atenção: “Já espancou um professor hoje?” O meu título de cima, escolhido com a mesma intenção, significa que estou tão indignado como ele. Tal como o psiquiatra Daniel Sampaio, autor na última Pública da crónica “Afinal quem manda lá em casa”, está indignado com a violência juvenil dentro de casa.
Afinal quem manda na escola? Os professores portugueses cada vez menos. Eles têm sido bastante maltratados. Não é apenas a violência física, por parte de alunos ou dos seus pais, mas também a violência, mais subtil, que consiste na progressiva retirada do poder que detinham. As duas poderão até estar relacionadas.

Em primeiro lugar, o poder tem sido retirado aos professores pelas pseudopedagogias não directivas que têm presidido à educação nacional. Na linguagem rebuscada que entre nós ficou conhecida por “eduquês”, essas correntes falam de “ensino centrado no aluno”. Essa ideia não é nossa e está longe de ser inovadora, pois a “escola nova” é bastante velha: já o pedagogo suíço Édouard Claparède escrevia nos anos 30 do século passado que “a concepção funcional da educação e do ensino consiste em tomar a criança como o centro dos programas e dos métodos escolares”. E não tem dado bons resultados, porque é uma ideia absurda. Faz parte da essência da escola – a instituição que a sociedade inventou há séculos para preparar as crianças e os jovens para a vida – que os professores ensinem e que os alunos aprendam. O professor sempre foi o centro da escola no sentido em que ele é que ensinava – um verbo agora proibido -, ao passo que os alunos aprendiam – um verbo agora pouco praticado. O aparecimento da “escola para todos” em finais do século XIX (que em Portugal demorou muito a chegar e que, infelizmente, ainda demora, com a tragédia do abandono escolar) colocou o professor ainda mais no centro da escola. A expressão “ensino centrado no aluno” ficou completamente excêntrica, até porque a sala de aula não pode ter numerosos centros.
Mas há uma outra forma de retirar poder aos professores, que, ao contrário da pedagogia que fala “eduquês”, é uma invenção nacional recente. Trata-se da ideia perigosa de que os pais dos alunos devem avaliar os professores. Quando ela foi desmentida, já se tinha espalhado… Aqui o conceito é mesmo novo, pois não tem antecedentes na história da educação, nem há nada parecido noutros sistemas de ensino. O ensino, em vez de ser centrado no aluno, passaria a ser centrado nos pais do aluno. Claro que a ideia não iria dar bons resultados, porque também é absurda. A escola é a instituição na qual a sociedade e as famílias decidiram delegar parte da sua autoridade na educação das crianças e dos jovens. É bom que a escolham. Mas têm de confiar na escola, o que significa em primeira linha confiar nos professores. Os pais não têm a capacidade nem a independência para julgar os professores. A ameaça da avaliação dos professores pelos pais não passa de uma forma de populismo que, apesar de instrumentalmente útil na luta do poder político contra os sindicatos, pode ter graves consequências a prazo. Com as agressões de pais a professores, essas consequências podem estar à vista…
Curiosamente, os sindicatos dos professores têm estado irmanados com o sistema educativo vigente há décadas, ao falarem “eduquês” e ao defenderem a centralidade do aluno. Já que os sindicatos o não fazem, não haverá ninguém que defenda os professores?
Professor universitário – tcarlos@teor.fis.uc.pt

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Sou Professor – Não Voto (Carlos Tiago)

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Chegou-me este pedido de divulgação de um professor que apela à Abstenção nas eleições. Eu pessoalmente nunca falhei uma eleição e não conto seguir este caminho. O voto é um dever e até acho que devia ser uma obrigação, mas compreendo o desanimo de muita gente com o nosso sistema político. Mas não votar é deixar de cumprir um dever de cidadania que foi conquistado com o 25 de Abril.

Mas sendo este um espaço Plural fica a opinião deste docente que apela ao “Não Voto” e faz campanha por isso.

 

Como abriu a época de “caça” aos votos para todos os locais onde há “presas” à solta e à “fartazana”, de forma a permitir aos “predadores” engordar o seu bolso, segue o meu modesto contributo para a economia do país refém da europa.

Nas últimas eleições já só votaram cerca de um terço dos eleitores e nestas espero que aumente a abstenção até que sejam votantes apenas os políticos, as famílias e os amigos (tal como nos governos). E já falta muito pouco para que este fenómeno aconteça e se comprove que o poder terá de passar para o povo e não continuar a estar alicerçado numa “casta” que constrói e consolida (legislando à sus medida) cada vez mais um imperialismo sugador e exterminador.

Se não houver votos, não haverá Deputados.

Se não houver Deputados não haverá Governos.

Se não houver Governos não haverá Presidentes da República.

Para estes contou o tempo todo e não houve cortes nem no número nem nos gastos, antes pelo contrário foram atualizados e aumentados como sempre.

Se foram eles que dirigiram mal o país, cortando neles, já sobrava dinheiro para cobrir alguma valorização salarial resultante da contagem total e imediata do tempo de trabalho aos professores. Já para não falar de terem de pagar os prejuízos que causam.

Estaria instalada alguma instabilidade política que serviria de reflexão para tentar abanar o sistema.

Por isso, vai a minha pequena beneficência.

Já está afixado no meu carro e desta forma até ainda ajudo o país a poupar muito dinheiro.

Por cada pessoa que não votar, os partidos não recebem perto de vinte euros pagos pelo Estado com o dinheiro dos nossos impostos e da desvalorização dos nossos ordenados.

No tempo do Salazar também se votava e o voto não valia nada para o povo, só produzia efeitos para quem governava.

Atualmente, assim estamos. Não houve qualquer evolução, apesar de haver mais partidos, todos contribuem para o mesmo efeito contra o povo, ou pelo menos contra os professores.

Segue foto do meu automóvel já devidamente equipado e ficheiro com o texto do panfleto.

Atentamente,

Carlos de Almeida Tiago

 

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