Educação sexual porque sim – João André Costa

Educação sexual porque sim

Os anos passam, as gerações passam, as décadas também, e as perguntas ficam por responder. As gerações passam, os nossos professores também, os que não sabiam responder às perguntas inquietantes, aos ímpetos inquietantes, às vontades em ebulição dos corações adolescentes, os nossos, os vossos. Agora somos nós os professores e, surpresa das surpresas, continuamos sem saber responder, e no entanto sabemos, experienciámos, aprendemos às nossas custas, por tentativa e erro, batendo com a cabeça na parede e, por vergonha, por falta de à vontade, revelamo-nos tão incapazes como quem nos precedeu para ajudar quem, diante de nós, faz as mesmas perguntas, e outras, vinte anos depois.

Sejamos francos e falemos, portanto e um pouco, sobre educação sexual. Sim, somos todos sexuados desde a nascença. Nascemos com um sexo, fruto do sexo, e preparamo-nos para o sexo. Por uma questão reprodutiva? Não só, por prazer, por amor, porque se o sexo não desse prazer, tanto prazer, a probabilidade de por aqui andarmos seria tão menor. O que é o orgasmo? É o clímax sexual, quando um homem ejacula e uma mulher também e os fluidos assim libertos potenciam a viagem dos espermatozóides ao óvulo, se houver um óvulo, se estivermos a meio do ciclo feminino. É errado um rapaz gostar de um rapaz e uma rapariga gostar de uma rapariga? É a expressão de amor pelo outro errada? Não. É errado gostar-se do sexo oposto? É errado sentir-me do sexo oposto? É errado não me identificar com nenhum dos sexos ou movimentar-me entre os mesmos? Também não. Como é que se faz para evitar uma gravidez? Sabem colocar um preservativo? Então, nada de contacto com a vagina antes de colocarem o mesmo, sob risco de meia dúzia de espermatozóides no líquido seminal. Basta um. E fazer um bebé é o mais fácil. Querem uma rapariga? Tenham relações 4 ou 5 dias antes da ovulação. Querem um rapaz? 2 ou 3 dias antes da ovulação, os espermatozóides Y são mais leves (têm uma perninha a menos) mas duram menos tempo e vice-versa. É possível engravidar se o rapaz e a rapariga estiverem juntos no banho? É, os espermatozóides nadam. Os métodos contraceptivos são 100 por cento seguros? Não. 100 por cento seguro é a abstinência. Quando se faz um aborto estamos a matar um ser humano? Sim. Devemos ir para a prisão por isso? Não, e ninguém aborta porque quer. Em vez de condenar, é preciso apoiar, é preciso educar, para que não se tenha de tomar uma decisão tão difícil. A probabilidade de contrairmos uma doença sexualmente transmissível aumenta com o número de parceiros sexuais? Sim, desde clamídia, gonorreia, sífilis, herpes genital, SIDA, só para citar as mais comuns. Pode-se morrer de SIDA? Sim, mas hoje em dia, e graças ao desenvolvimento da medicina, a SIDA é uma doença crónica. É uma vergonha falar de sexo? Vergonha é não falar e acabar com uma gravidez adolescente e uma criança sem culpa da ignorância dos pais.

Sem amor, o mundo não anda. É preciso amar, e para amar é preciso aprender. É preciso aprender a respeitar o outro, o parceiro, a parceira, o companheiro, a companheira, é preciso falar, ouvir, aprender, ceder, negociar, compreender, desculpar, perdoar, acariciar, abraçar, amar, e o amor, a educação sexual, não é só sobre sexo, é sobre relações interpessoais. Como nos vestir, como falar, como nos darmos a conhecer ao outro, o que se deve dizer e não dizer, o que é insultuoso e o que é socialmente aceite, os direitos das mulheres e os direitos dos homens, os direitos, a liberdade de expressão, a afirmação sexual, a liberdade sexual, o papel da igreja, a castração física, química, social, e por aí fora, há tanto por falar. Acredito como tudo o que fazemos na vida, fazemo-lo por prazer sexual e Freud tinha razão. Sexo em grupo? Troca de casais? É um campo de minas, falem com o vosso parceiro, liberdade sexual sim e respeito também. Qual a idade certa para falar de educação sexual com as crianças? Qualquer idade a partir do momento em que nos compreendem e aos 4 anos as crianças compreendem, e querem compreender, as diferenças sexuais, não sejamos hipócritas e Freud tinha razão. Outra vez.

Vamos falar de sexo, vamos educar para a sexualidade. Não falar de sexo é negarmo-nos, é negar a nossa existência e origem e a razão de ser. 20 anos depois, nós sabemos. Aprendemos às nossas custas. Não há motivo nenhum para não partilhar quanto aprendemos, é nosso dever, é a nossa obrigação, para que os erros básicos não se perpetuem no tempo só porque temos vergonha de falar de, e sobre, educação sexual.

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6 comentários

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    • José on 19 de Março de 2019 at 16:53
    • Responder

    EU NÃO QUERO DAR EDUCAÇÃO SEXUAL!!!

    Da mesma forma que não quero as cidadanias, as interculturalidades, as prevenções rodoviárias, dos comportamentos de risco, da violência doméstica, dos projectos, das …
    Não gosto de conversas de café, de conversas estéreis, de pontos de vista baseados nos comportamentos dos vizinhos do 6º andar ou de recortes de jornal, não gosto de tretas de conversas/projectos/trabalhos colaborativos que mais não passam de artigos retirados daqui, de acolá ou de outros sítio qualquer numa apresentação fantástica sem conteúdo e sem fundamentação científica, não gosto de trocas de opiniões e do “acho que”/ “penso que”/ “acredito que”/”ouvi ou vi que”… detesto perda de tempo que não permite chegar a lugar além do senso comum…
    Triste da escola que deixa de ENSINAR SABER E CONHECIMENTO para passar a ser o prolongamento da sociedade…mas convém-lhes…e, de que maneira…

    Há muita gente que gosta especialmente destas coisas, na maioria dos casos que conheço são os que não gostam muito das aulas em que ensinariam as suas disciplinas,… – deem-lhas!!!
    Que sejam as pessoas adequadas???- às vezes serão, em muitos casos como se ensina o que não se pratica?
    Como se ensina cidadania, sem se conhecer a constituição? como se ensina cidadania sem se conhecer os mínimos dos direitos laborais? Como se ensina cidadania quando se é incapaz de formular um documento, fundamentá-lo e preferir ficar a dizer mal nas costas e sentado no sofá?
    Como se ensina Cidadania quando se é incapaz de se preocupar e fundamentar a desigualdade e a exclusão social? Como se ensina cidadania quando se utiliza a porta dos fundos para trepar mais depressa? Como se ensina cidadania quando se interessam mais pelo umbiguinho, pelo fato do ginásio, pelo cabeleireiro e unhas de gel ou pelas novas receitas para cozinhar e nada pelos acontecimentos diários, no país e no mundo?

    Como os políticos: a cidadania é, tão só, uma coisa de muitas palavra,…
    … a sua prática pelos cidadãos é perigosa!

    Eu quero ensinar aquilo em que me licenciei e que considerando, o ministério à época, que para o ensino (ao contrário do exercício de outras profissões) tal não chegaria (veja-se lá ao que chegamos, quando hoje só se quer entreter os jovens) ainda tive que fazer mais 2 anos de pedagógicas para dar aulas e ambicionar integrar os quadros e que durante 30 anos, pratiquei, corrigi, aperfeiçoei… É isto que eu tenho para dar aos meus alunos e é isto que eles valorizam: a solidez do que dizemos e do que ensinamos, a convicção com que o fazemos, o respeito que sentem ao percepcionar que queremos o melhor para eles e o cumprimento escrupuloso das regras num tratamento justo, mais igual e expectável por qualquer um dentro da sala de aula.
    Ao fim de 30 anos uns imberbes (muitos nunca deram aulas) querem convencer-me que o que fiz, fiz mal??? – vão arregimentar e evangelizar quem quiserem mas não a mim, que sempre fui profissional e sempre fiz com convicção!

    O que estão a fazer à escola pública, aos alunos e aos seus professores é de uma calhandrice, sacanice e desprestígio sem limite! (Infelizmente e como em todas as profissões há quem o mereça mas não, e nunca, a sua maioria)

      • Mónica Curato on 19 de Março de 2019 at 23:11
      • Responder

      Não é o professor um educador? Um eterno aprendiz, inovador, autodidata? Que pode e deve interferir sempre que se justifique, desde que siga o caminho do bem e da sabedoria?
      Eu sou mais que uma transmissora de programas, currriculos e livros escolares, eu sou uma transmissora da humanidade, do amor.

      • J.F. on 20 de Março de 2019 at 15:18
      • Responder

      José:
      Ao transcrever-me (na íntegra), sem o mencionar, das duas uma: ou concorda comigo ou pretende provocar uma discussão…
      Caso seja por concordância, significa que mais sentem o mesmo, eu conheço vários e fico a saber que o José também. De qualquer forma não é honesto utilizar o texto de outros sem o mencionar.

      J.F. 19 Março, 2019 at 1:25, in https://www.comregras.com/quem-quer-ficar-com-as-horas-de-educacao-sexual/

    • Nuno Morais on 19 de Março de 2019 at 19:35
    • Responder

    Não me incomoda dar educação sexual, dizer aquilo que não lhes ensinam em casa, abrir-lhes horizontes, conhecimento e desfazer o diz que disse e, principalmente, o deturpado que vai pela internet.
    Haja vontade, não haja hipocrisia.
    Mas, estará a sociedade recetiva a tal abordagem? E, sendo professor, homem, facilmente posso ser conotado como gay (ou pior). Arrisco, sempre arrisquei. E só parei, como sucedeu há pouco e apenas nesta escola, quando os pais imberbes ao diretor se queixarem e este, em vez de nos defender, reprime e critica a ousadia de estes assuntos abordar.
    Assim, e porque tive centenas de alunos a olharem-me de soslaio (lá está, ou é gay ou pior…), vi-me na obrigação de anunciar, a contra gosto, “não sou gay mas podia ser, e depois?!”.
    Noutro lugar, noutra escola, voltarei. Porque sei que o conhecimento impede o erro. E isso é ser-se, também, professor.
    Desde que o mesmo se sinta à vontade para o fazer, nunca por decreto (sim, Rui, aí concordo.

    • Carlos on 20 de Março de 2019 at 12:13
    • Responder

    O problema é que as convicções pessoais serão sempre colocadas na disciplina de educação sexual caso não haja formação especifica A SÉRIO de professores nesta área.

      • J.F. on 20 de Março de 2019 at 19:52
      • Responder

      Quer se queira, quer não se queira… as convicções não se metem em gavetas que se fecham e abrem consoante a conveniência. Elas fazem parte da personalidade e do carácter pessoal.
      A isenção e a imparcialidade que se desejariam poderão ser treinadas mas estarão sempre condicionadas por tais características – tudo o mais é treta!
      O Homem é uma animal político (no bom sentido) – mal de nós quando nos quiserem tirar isto!

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