A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! – João André Costa

 

 

A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país!
Mas não de acordo com o ranking das escolas, onde a Básica do Bairro Padre Cruz, em Lisboa, ficou em 1044o. Aliás, dependendo do ranking das escolas, pais e alunos fugiriam a sete pés desta escola, rapidamente levando ao seu encerramento e ao fim de um dos pilares deste bairro social.
Porque na Básica do Bairro Padre Cruz nenhum aluno fica sem comer. E há muitos em risco de passar o dia sem comer. Para muitos, a refeição na escola será a única do dia inteiro. Para muitos, poder comer é a razão de ir à escola. Mas não só.
Porque a Básica do Bairro Padre Cruz coloca o carinho e o  afecto antes do currículo, fazendo de tudo para que os alunos passem mais um dia na escola e menos um dia na rua, passo a passo reconstruindo as vidas perdidas de tantas crianças perdidas. O Bairro Padre Cruz é assim chamado em homenagem ao Padre Francisco Rodrigues da Cruz e a uma vida dedicada em pleno aos mais desfavorecidos. E outra coisa não se pode dizer sobre a sua Escola, onde os professores são mesmo a família que os alunos nunca tiveram, nunca terão, têm agora, na escola, na professora, nos professores e auxiliares, no Director da escola.
Porque um professor não pode viver dissociado da realidade de tantas famílias, de tantas crianças, do desemprego, da violência, dos problemas
com a polícia, da revolta, a toxicodependência, os abusos físicos e emocionais, as noites mal dormidas, a falta de comida em casa, a falta de roupa, a falta de um abraço e um sorriso, poder finalmente chorar, a falta de amor.
E na Básica do Bairro Padre Cruz os professores são mais do que professores, são missionários, dedicando os dias à causa destas crianças e às vidas destas crianças, e as noites a sonhar com a vida destas crianças,tantas vezes acordando a meio, e os miúdos debaixo da pele, os problemas dos miúdos debaixo da pele, os problemas que não saem e passam a ser parte do que
somos.
É impossível não nos envolvermos. É impossível não nos emocionarmos. E esta é a maior aprendizagem de quem vem ensinar para esta escola. Esta é a maior prova de crescimento num corpo docente com 60% de professores novos este ano, professores esses que em setembro estarão noutro lado, isto se não estiverem desempregados.
Meus caros, a mobilidade docente é um crime. É dizer às crianças que não há mais ninguém. É deixá-las por sua conta. É deixá-las à deriva no meio da tempestade, outra vez, e ninguém se habitua a uma tempestade. À deriva, as tempestades aumentam. É frustrar as expectativas, os sonhos, as
lágrimas, é criar mais raiva, mais ódio, solidão, angústia.
Não obstante, sem desistir, esperançosos, os professores multiplicam-se e desdobram-se entre as aulas e os apoios individuais, entre os projectos e as reuniões com os pais, educando alunos mas também famílias inteiras, fazendo milagres com os poucos recursos ao seu dispor. Isto porque a diminuição do número de alunos ao longo da última década levou sucessivos governos a retirar à escola desde psicólogos ao grupo de teatro, sem esquecer o grupo de música, as colónias de férias, visitas de estudo. Outro crime, e os alunos não são números, as crianças não são números, mas são, são o futuro, o nosso futuro, nem por isso risonho. A Escola Básica do Bairro Padre Cruz é a melhor escola do país! Digam o que disserem. Por não se limitar a ensinar, a formar, por querer saber de facto sobre as crianças, por viver os seus problemas, por sair dos muros da escola ao encontro do bairro, por abrir as portas ao bairro, por fazer parte de um todo e no todo trabalhar, sem parar, à procura de respostas. E as respostas para o abandono escolar, para as reprovações consecutivas, para o analfabetismo, para os problemas sociais e as famílias desestruturadas começam pela fixação do corpo docente. Para que estas crianças possam voltar a sonhar. E nós também.

 

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2 comentários

    • Amélia on 20 de Fevereiro de 2019 at 12:25
    • Responder

    Bom dia a todos!

    Sou a Amélia e já trabalhei na Escola Básica do Bairro Padre Cruz durante seis anos…. os melhores da minha vida. Tinha autonomia para os mais variados papéis desempenhados e todas as sugestões propostas foram aceites como uma mais valia na qualidade de vida dos alunos. Tenho saudades, tenho sim e um bom filho à casa regressará.
    Esta instituição prima pela formação integral do seu público, não estando apenas e só “obcecada pelos resultados dos exames nacionais e dos rankings”. Trata-se de uma escola onde há humanidade, INCLUSÃO (sem burocracias), trabalho colaborativo e de parceria com as demais instituições e na qual os afetos afloram em cada canto e esquina.
    Com isto e faltando-me as palavras certas para descrever, com orgulho, esta escola única, apenas me resta agraciar todos os professores, assistentes operacionais, alunos e Comunidade Educativa na generalidade bem como a Junta de Freguesia de Carnide. Com um pouco mais de realce, um apertado abraço saudoso aos seguintes colegas: António Almendra, Rui Serrano, Elsa Figueiredo, Paula Dionísio, Helena Nascimento, Ana Noronha, Maria José (Matemática), Cátia Freitas, Maria Manuel Passas, Paula Louro Ivone Moura,…. desejando que a vida lhes retribua a triplicar todo o bem que têm feito em prol da salutar construção HUMANA e DEMOCRÁTICA, sem nunca deixar ninguém para trás…..
    Obrigada pela mais valia que foram, são e serão na minha vida pessoal e profissional.

    Beijinhos Enormes,
    Amélia

    • Orquídea neves on 20 de Fevereiro de 2019 at 13:27
    • Responder

    Fiquei emocionada. Assim é que vale a pena ser professor. Ensinar quem tudo tem é quase tudo pode fazer não é obra. Obra é contribuir para uma sociedade mais justa e dar aos outros (crianças) a possibilidade de um futuro melhor. Bem haja a quem o faz.

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