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Abr 06 2017

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Opinião de Maria de Lurdes Monteiro

Todos sabemos que uma casa não se constrói a partir do telhado mas a partir dos alicerces. É verdade que há muito que mudar no sistema de ensino, mas se não encararem as mudanças a fazer no 1º ciclo esqueçam… o que vier depois serão remendos quando o sentimento de insucesso e a rejeição à escola já está instalada, diria mesmo enquistada.
 

SUCESSO ESCOLAR, SR. MINISTRO? COMECE-SE PELO 1º CICLO!

 

 

 

Se não se mudar radicalmente o 1º ciclo, continuaremos a ter crianças e jovens que cedo perdem a curiosidade e o interesse pela aprendizagem, fragilizadas, desconfiados, descrentes, sem confiança em si e na sua capacidade de aprender. A pressão diária instalada na escola e seguida pelas famílias dá cabo da capacidade de SER criança, de SER jovem. Em plenitude.

O que se passa hoje no 1º ciclo é completamente absurdo. Perante tal absurdo pergunto-me: quem decide ainda saberá o que é SER CRIANÇA? Terá crianças por perto ou vive numa bolha?

Compartimentou-se de tal modo o conhecimento em disciplinas que as crianças não vislumbram a associação à realidade. Qualquer pequena fatia de jardim perto da escola, com diferentes árvores, arbustos, flores, em que se passeiam lagartixas, minhocas, formigas em que esvoaçam melros, pardais, borboletas, escaravelhos, pode dar lugar a um exercício vivo de interação e descoberta em que a identificação, o registo, a categorização, a pesquisa sobre os diferentes seres vivos observados e suas caraterísticas alimenta a curiosidade e traz um conjunto inesgotável de conhecimento à medida da idades das crianças. Não será seguramente um conhecimento assente em ler e copiar páginas do manual de Estudo do Meio mas sim algo natural e vivo que casa o Estudo do Meio, a Matemática, a Escrita, a Leitura e a conversação, as Expressões.

Do mesmo modo aprender a ler não pode continuar a ser uma corrida de alta velocidade com metas estapafúrdias ditadas de cima. Não pode ser centrado em metodologias únicas, antiquadas e ineficazes que com umas pinceladas de novidade são apresentadas nos manuais escolares. Aprender a ler, a escrever e ficar com o bichinho da leitura exige uma outra abordagem que faça sentido no mundo em que estamos.

Como no passado e no presente não poderá continuar-se a ensinar uma classe como se fosse um só aluno, isto é, fazendo igual para todos; não podem mandar-se repetir e repetir de novo as matérias em aulas de apoio suplementar como se as crianças fossem atrasadas. Dê-se-lhes tempo, puxe-se pela sua curiosidade inata, estimulem-se os progressos, faça-se da avaliação algo em que tudo conte incluindo o trabalho que todos os dias é feito pela criança em aula, cinco dias por semana, mês após mês. A avaliação centrada exclusivamente em testes é um absurdo para crianças desta idade, como se o imenso trabalho que fazem todos os dias fosse de deitar ao lixo. A obsessão dos últimos anos de tornar a organização do 1º ciclo igual à dos ciclos seguintes tem causado imensos danos às crianças.

Quem está atento sabe que há pouco para inventar, o que há de melhor também se faz em Portugal ainda que em pequena escala. Temos escolas e salas de aula que fazem diferente. Temos tido muitos projetos inovadores com instituições de suporte, temos escolas e professores que os podem partilhar como estímulo para outros. Temos dados disponíveis, investigações que apontam caminhos, pedagogos, pensadores e cientistas interventivos. O diretor do Departamento da Educação da OCDE, Andreas Schleicher, diz que é preciso reorganizar a aprendizagem, com “ousadia”, diz que “Portugal tem obviamente assistido a um enorme progresso, mas precisa de ter cuidado para educar as crianças para o seu próprio futuro e não para o nosso passado. “

Para mudar o processo de ensinar no 1º ciclo é preciso esperar mais tempo SENHOR MINISTRO? Mais experiências? Andamos há décadas nessa lógica. Poupem-nos! A nós, às crianças, aos professores.

Maria de Lurdes Monteiro

aescolanaoetudomasquase.blogs.sapo.pt

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  • Desculpas

    Enganou-se no destinatário do texto.
    Com excepção da referência as metas, tudo o resto é da responsabilidade das escolas e dos professores.
    São os professores quem define, elabora e aplica as metodologias, atividades e instrumentos de avaliação.
    Os critérios de avaliação são defendidos pelas escolas, aprovados pelos respetivos CP.
    Tudo isto faz parte da AUTONOMIA da escola e dos professores
    Com o fim das provas finais de ciclo no 1º ciclo já nem sequer existe essa desculpa para se fazer tudo igual.
    • Paulo Liquito

      Se não se mexerem naquelas metas loucas deixadas pelo ministro Castro… tudo o resto é utopia. O destinatário em certa medida está certo…
      Os alunos do 1º ciclo têm carga a mais e essa vai, aparentemente, manter-se.
    • Fátima Graça Ventura

      Pois são! Os professores.
      Também são os professores que definem o horário e a matriz curricular! Tudo. Os professores decidem tudo. Por isso, com 3 tempos por semana de lecionação de Estudo do Meio, MUITO se pode fazer!!! E a disciplina que “mais liga os alunos à natureza”, e da qual se poderia partir como motivação para todas as outras aprendizagens, desenvolve-se assim- 3 tempos em 25 semanais. Ah! E a componente experimental, que delicia os miúdos, pode ser GRANDEMENTE explorada!!!!!
      Há pessoas que estão por fora… Nada a fazer!
    • Fátima Carvalho

      Concordo.
    • Lurdes Monteiro

      Obrigada Fátima, só agora vi que o meu texto foi publicado aqui. Sabe que o PAÍS (incluindo as UNIVERSIDADES, PAIS, DECISORES, desde a Junta de Freguesia ao 1º ministro ) NUNCA quis assumir que, como a Fátima diz, as metodologias, as atividades e os instrumentos de avaliação teriam de ser encarados de outra forma, porque, ao dizê-lo, teria que mexer em TUDO e tanto é… é fácil culpar só os professores; não é por aí que vou e perceberá isso se quiser aceder ao meu blog… todos somos poucos para mudar o que tem de ser mudado!
  • Dulce Silva

    Lá está. O estudo do Meio só se dá em 3 tempos, ou não se pode articular com outra coisa? Há pessoas que estão por fora, e outras estão por dentro… Dentro das crianças e da sua maneira de ser; dentro do universo das disciplinas e menos das metas; dentro do que interessa e me levou a seguir a profissão. Há turmas e turmas, culturas, etnias, e personalidades. Nada disso devia desculpar o facto de as aprendizagens serem transversais… Os escrever um relatório de observação está a praticar a escrita e o português; ao contar espécies, organizá-las em tabelas, quadros estatísticos, medir coisas, etc está a trabalhar a Matemática. Tudo enquanto trabalhou Estudo do Meio. Secalhar pode trabalhar conteúdos de uma coisa por meio de outra, e assim duplica o real tempo de trabalho sobre o conhecimento e as CAPACIDADES. Mas isto sou só eu que digo…
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