Andam as escolas a ficar perigosas?…

 

No 1º ciclo, tem-se assistido a um aumento substancial de violência por parte dos alunos. Quase todos os dias  chegam relatos em catadupa… Não se encontram as razões, não se tomam medidas.

É verdade que há alguns anos, trabalhar no 1º ciclo era um sossego, no que diz respeito a comportamentos desviantes, hoje não. Embora não existam números, é algo que não deve interessar a alguém, é um facto que os comportamentos das crianças do 1º ciclo têm vindo a degradar-se dentro da escola. Já não se trata de pequenos episódios esporádicos, nesta ou naquela escola, ou limitado a certos estratos da população. Hoje, está-se a generalizar. As razões são muitas. Há quem continue a apontar o dedo a jogos e programas de televisão, mas vão muito para além disso…

As mudanças na sociedade têm sido muitas e com elas vieram as mudanças de valores. A educação e transmissão de valores às crianças tem sido, sistematicamente, passada à escola, mas a escola não está preparada para isso. Os atuais encarregados de educação, devido aos seus afazeres, não têm tempo de passar os valores do convívio em sociedade aos seus educandos. Resta a escola, que não está equipada para isso.Violência

No 1º ciclo, as crianças, veem-se fechadas, dentro de uma sala de aula, seis horas por dia. Quando saem da escola são fechadas em ATL´S, Centros de Estudo, atividades várias, ou até em casa, não têm tempo de brincar, de sociabilizar… A consequência é que não estão a aprender a viver em sociedade. Com isso vem a agressividade, entre pares, aluno/assistente operacional, aluno/professor… encarregado de educação/assistente operacional, encarregado de educação/professor… Os Centros Escolares, neste aspecto, não vieram ajudar, juntaram um número quase incontrolável de alunos, perante o rácio aluno/adulto na escola.

Há uns anos, era difícil ouvir relatos de um aluno ter sido mais agressivo com um adulto, com quem contactava na escola. Hoje já não é assim, é usual. As escolas estão a ficar perigosas.

Das alterações ao Estatuto do Aluno pela Lei 51/2012 de 5 de setembro, não resultaram grandes efeitos práticos. As escolas, também têm a sua culpa. A tendência em desvalorizar e de não atuar, tem sido persistente. É mais fácil olhar para o lado e assobiar. Não dá trabalho…

Mas vamos a exemplos: Um aluno, em sala de aula, não acata um pedido de realização de uma tarefa por parte da professora. A professora insiste. O aluno amua e diz que não faz. A professora tenta dissuadi-lo e levá-lo a realizar a tarefa. O aluno insiste que não faz. A professora não desiste. O aluno levanta-se e diz, já “chateado”, que se vai embora. A professora tenta dissuadi-lo de sair da sala de aula. O aluno não está para aí virado. A professora vê-se obrigada levantar a voz, dando-lhe a ordem para se sentar de imediato. O aluno desata num pranto e acaba por se sentar, depois de alguma insistência. Choraminga toda a manhã e não realiza nenhuma das tarefas nesse espaço de tempo. No meio dos soluços e da insistência da professora em que realize as tarefas, a educação polida do menino revela-se. Fica de castigo e não vai ao intervalo. Durante a hora de almoço, frustrado pela manhã de “clausura”, desentende-se com um colega, enquanto “chutam umas bolas” e empurra-o, levando o outro a uma queda. Não contente, ainda lhe “espeta uns chutos” na parte abdominal. A assistente operacional que o tenta dissuadir de continuar a agressão, é insultada. Não leva um “chuto”, porque se desvia a tempo. O aluno fica de castigo, novamente, no intervalo da tarde. Durante a aula de Educação Física, AEC, decide ajustar contas com o colega, pois sente-se injustiçado. Distribui mais uns “chutos”. O professor intervém. O aluno amua novamente, remetendo-se a um canto, não realizando a aula. No dia seguinte, logo pela manhã, a encarregada de educação espera pela chegada da professora. A revolta é evidente no seu olhar. O seu rebento foi vítima de um abuso por parte, da professora, da assistente operacional e do professor de Educação Física. A professora explica-lhe o sucedido no dia anterior e em outros em que ela “aturou”, mas relevou este tipo de atitudes. A encarregada de educação, mais calma, atira com a questão dos “nervos” do petiz. “É dos nervos, senhora professora. Ele é muito nevoso. Já não sei o que lhe fazer…” (se ela não sabe, queres ver que é a professora que vai saber…) Também pode acontecer que o encarregado de educação não queira “diálogo” com a professora e se vá queixar ao Sr. Diretor… e lá vai a professora explicar-lhe o que ele já devia saber…

O que fazer nestes casos?

Situação 1: Nada! Continua-se a “aturar” as crises nervosas, os insultos, os desafios, as agressões, o descontentamento dos outros encarregados de educação… e vai-se levando até ao final do ano…

Situação 2: Faz-se uma participação de ocorrência. E depois espera-se… espera-se pelo quê? Pela aplicação de uma medida disciplinar corretiva ou sancionatória, de acordo com os Art.º 24º, 25º, 26º, 27º e 28º da Lei 51/2012 de 5 de setembro? No 1º ciclo, isso é tão raro, que devia estar sobre proteção da ONU. No máximo dá-se-lhe uma tarefa, que deve executar durante um determinado período de tempo como, ajudar a levantar a loiça das mesas do refeitório, ou ajudar a professora bibliotecária durante os intervalos. Não há garantias de que o aluno realize as tarefas se, estiver “chateado com a vida ou num dia de nervos”…

Se uma criança tem este tipo de atitude no 1º ciclo, será que quando transitar para o 2º ciclo “vai ganhar juízo”?

(Há colegas de outros ciclos a ter que chamar as autoridades policiais para que alunos abandonem as salas de aulas.)

A autoridade do professor foi dilacerada. Nos dias que correm, se o professor levanta a voz, já não é um pedagogo, é um bruto. A sociedade perdeu valores, mas mesmo assim quer que a escola continue a “educar” o futuro.

Estamos assistir a uma transição, já longa, de métodos de educação. Vimos de uns pais “autoritários” e de certa forma “distantes”, conscientes do seu papel na educação dos filhos, para uns pais “amigos e próximos” (tão próximos que às vezes se confundem com os filhos) que ainda não perceberam como educar os filhos nesse papel.

Entretanto, o ambiente na escola vai-se degradando e o espaço torna-se perigoso para todos…

Até quando?…

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14 comentários

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    • Natália Rosa on 2 de Março de 2016 at 20:46
    • Responder

    E assim vai a vida nas escolas. Há que lembrar também que muitos desses conflitos, desses amuos vêm de casa, famílias desestruturaras, com problemas de valores muito graves e que atingem diretamente e principalmente as crianças que não têm culpa dos desentendimentos dos pais.

    • Fafe on 2 de Março de 2016 at 20:55
    • Responder

    Até quando? Assim, tão de repente, até que qualquer um não seja professor. Sei que é polémico – mas os “eles exteriores” identificam eficientemente a fraude.

    • Armando Oliveira on 2 de Março de 2016 at 21:19
    • Responder

    Sim e a realidade é bem pior!

    • Fafe on 2 de Março de 2016 at 21:57
    • Responder

    Eu estava aqui para ficar “nevoso”, actuando por indução, contudo sem antena passiva, mas tal seria só o que faltava!
    Irei dormir pedagogicamente, como sempre o faço, esquecido dos geadas duvidosos, daqueles que querem ser vítimas.

  1. Um post bastante oportuno, que toca em diversos pontos que importa discutir.
    O meu contributo; https://escolapt.wordpress.com/2016/03/03/indisciplina-e-violencia-no-1o-ciclo/

    • torradeira on 3 de Março de 2016 at 12:27
    • Responder

    Ai tantas vírgulas fora de sítio!!!
    E sim, a violência veio para ficar. Tanto no primeiro ciclo como nos restantes. Há ainda outra situação, que é a da direção muitas das vezes aplicar penas suspensas repetitivamente e em casos completamente diferentes. Depois queixam-se da falta de coerência nos castigos aplicados. Há que se suspender os alunos e fazê-los cumprir trabalhos cívicos para que aprendam a respeitar o próximo, mas com mão firme das “diretorias”.

    1. O comentário sobre as vírgulas é indelicado e escusado, sobretudo vindo de quem usa três pontos de exclamação, por exemplo. Serão reminiscências da adolescência? 🙂

        • Fafe on 3 de Março de 2016 at 20:19
        • Responder

        Quer dizer que o mensageiro é tão culpado como e quanto a mensagem original?
        Prova-se que respirar não é preciso para se viver em bloco.

    • Fafe on 3 de Março de 2016 at 19:18
    • Responder

    “Ai tantas vírgulas fora de sítio!!!”
    E a vírgula?

    • Fafe on 3 de Março de 2016 at 21:58
    • Responder

    Eu, hic, ao soluçante, hic, apelidaria de, hic, divertido.
    Convenhamos, não acredito num geadas que se arma em representante sem saber ter aprendido.

    • Jose F M Bernardo on 6 de Março de 2016 at 20:43
    • Responder

    …fora as agressões a que os profs estão sujeitos e são vítimas silenciosas com a conivência das hierarquias que protegendo-se na nuvem da cobardia lá vão afugentando os papões dos inspectores!

    • Queixa a Andaar on 11 de Março de 2016 at 1:37
    • Responder

    Sem números, sem fontes, nem percebo onde vão buscar estes “dados” para
    aferir este situação generalizada nas escolas do 1º ciclo!
    Nos jornais, telejornais? Os fazedores de uma inopinada opinião! Enfim, coisas deste tempo sem tempo de reflexão. É que eu não vejo isso nas nossas escolas públicas, e ando lá muitas vezes…

      • Alex on 11 de Março de 2016 at 9:30
      • Responder

      Não deves andar o tempo suficiente ou nas escolas “certas”. O grande problema é que os docentes do 1º ciclo vão “aturando” e resolvendo. No dia em que isso deixar de acontecer vai ser o caos.

      • Alex on 11 de Março de 2016 at 9:37
      • Responder

      Mas para que veja que a opinião se está a tornar generalizada, http://www.comregras.com/os-cavalinhos-selvagens-do-1o-ciclo/

  1. […] No 1º ciclo, as crianças, veem-se fechadas, dentro de uma sala de aula, seis horas por dia. Quando… […]

  2. […] nosso colega Rui Cardoso do Blogue DeAr Lindo, fez um artigo muito interessante e que mostra uma realidade cada vez mais acentuada. Os […]

  3. […] Andam as escolas a ficar perigosas?… […]

  4. […] do ComRegras levantar o tema da indisciplina e de um artigo aqui no blog, parece que quem manda acordou… Esta inversão de politicas é urgente, até muito mais do que […]

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