As 50 sombras da minha docência

As minhas agruras com o 7ºG prosseguem. Porém, a verdade é que, por esta altura, confesso que atingi, entretanto, mais metas dos que as esperadas:

  1. Colocar o dedo no ar antes de falar (‘tá quase);
  2. Não se levantar sem mais nem menos, nem deambular pela sala de aula (check!);
  3. Não falar sem ser solicitado (‘tá quase);
  4. Trabalhar com o par ou com o grupo (say what?);
  5. Não trazer assuntos exteriores para a sala de aula (‘tá quase);
  6. Não atirar aos colegas O.V.Es – objetos voadores não especificados (check!);
  7. Trazer o material solicitado – caneta, papel, borracha (’tá quase), manual… (esquece lá isso);
  8. Não escrever nas mesas, não colar pastilhas nas paredes ou nas costas dos colegas (check!);
  9. Não atender telefones / fazer chamadas à socapa, enviar ou receber mensagens (check!);
  10. Fazer, pelo menos, um tpc mensal (check!);
  11. Dar 15 minutos ininterruptos de matéria numa aula de 90 min (YES!!!!!!);
  12. (…)

A última aula, porém, véspera da reunião com os encarregados de educação, finalizou de forma promissora. Depois de lermos e interpretarmos um texto, chegou o momento da análise do mesmo. Apesar de perceber que o Diogo, bem ao fundo da sala, se contorcia na carteira em silenciosos esgares de dor, dobrado sobre a barriga; como o rapaz é um fiteiro de 1,75 com seus catorze anitos, ignorei-o um bom bocado.

– A metáfora é uma comparação, mas sem o “como”, por exemplo; “a torre de marfim” transmite a ideia que a torre era…

– Jandira, dás-me uma folha?

– Pede à Joana!

– “Branca como o marfim”. O “como” já indica que…

(Ao fundo da sala o Diogo parece ensaiar palavras com os lábios a mexerem em surdina…)

– Muito bem, indica uma comparação, quem me dá outro exemplo que distinga a metáfora da comparação?

(O Diogo começa a erguer o braço timidamente no ar, hesitando se o faz ou não.)

– Nelson, trouxeste…? Desde 2ª feira…

– Pedro, és bué de estúpido, não me riscas mais o caderno, ouviste?

– Temos, também, a hipérbole…

– Priscilla cala-te, ‘tás-me a irritar! Nunca mais sou tua amiga…

– Ó Pedro, a Maria gosta de ti…..

– Quem me dá um exemplo de hipérbole?

– Stora, doem-me os tes-tí-cu-los!

Depression (Por amor de deus, eu estou MESMO a ouvir isto???

Ok, respira. RES-PI-RA!!! Pensando bem, é bonito ouvir a língua portuguesa tão bem empregue, não é?)

No início todas as cabeças se voltam para trás, estupefactas. Porém, depressa as gargalhadas mandam a sala abaixo. O Diogo, finalmente, disse o que tinha a dizer para toda a plateia o ouvir. Mas eu tenho mesmo de me manter séria, pois percebo que o seu sofrimento é sincero e que, pela primeira vez, desde que o ano começou, teve o mérito de ponderar as palavras a usar, antes de o fazer. Se pensar em todo o vocabulário que empregou anteriormente e espoletou a sua ida para a rua, parece-me até que temos aqui uma nova meta alcançada. Respiro fundo enquanto me viro dois segundos para o quadro para suster o riso desprevenido e volto a olhar o miúdo nos olhos.

– Diogo, vai um bocadinho lá fora, pode ser que se andares te sintas mais confortável…

(Posso lá eu saber se é essa a solução, mas numa altura de aflição, tem de se pensar em algo rá-pi-do para não aumentar o sofrimento – nem o dele, nem o meu…)

Quando, finalmente, dá o toque e eles saem, sozinha na sala, rebento num riso incontrolável. Não sei se é da situação em si ou se começo mesmo a ceder à pressão do final do ano… Feitas as contas isto tem corrido muito bem até aqui.

Por outro lado, só de pensar que, agora que quase domestiquei estas feras, vamos voltar a separar-nos uma semana inteira, não sei se hei de sentir medo ou alívio. Como se trata de uma turma com horário de manhã, vai ser brindada com cinco dias inteirinhos de férias (sim, porque, para eles, a sexta-feira é, definitivamente, dia em que não trabalham, dê por onde der), enquanto os seus colegas fazem exames. Antevejo já um recomeço muito penoso – mesmo antes de acabar, não haja qualquer dúvida que, para estes alunos, o ano letivo já chegou ao fim.

 

 

NOTA: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência…

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6 comentários

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    • micas on 17 de Maio de 2015 at 22:25
    • Responder

    doem-me, por favor

    • Luis Baiao on 17 de Maio de 2015 at 23:02
    • Responder

    Alguém que se diverte com a sua “cruz”? É de louvar o espírito e um exemplo a tomar em conta. Podemos queixar-nos mas fazê-lo de uma forma divertida não é para qualquer um.

    • Tania Santos on 17 de Maio de 2015 at 23:19
    • Responder

    Tb tenho um 7º G assim.. e quantos mais haverá neste país…. *suspiro profundo*

  1. … Lamento o riso incontrolável a propósito da incapacidade.

  2. Delicioso!!!
    Quantos “7ºG” não haverá por essas escolas, perdão, unidades orgânicas fora…

    Bem sei… dirão sempre que são casos pontuais, excepções, … quejandos que tais…

    Bem… se a coisa puder ser integrada em projectos (sucessos + ou + sucesso, coisas do séc.XXI digitais e muito interactivas como teclas, iPhone, iPad,…) é só esperar pelo sucesso… que aquilo faz com que qualquer estratégia redunde em estrondosos números de sucesso… “não há meta que não lhe assista”…
    Bem… “VOC + ” é capaz de sair bem mais baratinho – um expresso mais rápido para o direito ao sucesso e plena integração no futuro rendimento social de inserção… afinal a igualdade de oportunidades é bem mais fácil de atingir se se perspectivar e trabalhar para os mínimos…

    • José Corceiro on 18 de Maio de 2015 at 11:44
    • Responder

  1. […] AS 50 SOMBRAS DA MINHA DOCÊNCIA […]

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